quarta-feira, 25 de maio de 2016

As Vacas Zen

Hoje Marinalva está animada: Na verdade, ela sempre gostou de observar  as pessoas e os bichos, encara todo mundo! Tanto  que Cristalina invariavelmente pede:
- Mãe pára de encarar as pessoas ! Por favor!
Isso acontece com os animais, ainda mais que Nalva passa diariamente por uma estrada povoada de vaquinhas!
Casualmente hoje, ela está feliz conversando com as irmãs:
- Maninha já observaste o comportamento das vacas?
- O que qui é isso maninha? Achas que eu lá tenho tempo pra essas coisas?
- Claro, deves ser uma alienada que não tem tempo para nada! Mas que para ficar bobeando no whatshapp ou no face, para isso sim tem tempo não é?
- Credo, que grossa!
- Não liga, o que eu quero dizer é que talvez as vacas já estejam vivendo em uma outra dimensão! Até as vacas nos superaram…
 - Isso é maneira de falar?
- Vou te explicar: ontem vi um grupo de vacas zebu, de horobinha, corcovinha, sentadas uma ao lado da outra. Olha só o detalhe do corpo! Há o corpo! Parece que tinham ombrinhos que nem nós, e as orelhas eram cabelos pagem! Sentadinhas em roda, uma ao lado da outra,  sem falar, desfrutavam da mesma paz de espírito. Em grupo, a fala tornava-se desnecessária. Já ouviste falar de um grupo de humanos capaz disso?
- Nunca, no Deserto de Gobi, quem sabe?
- Acho que elas podem estar vivendo em um mundo paralelo, e nós bárbaros, as assassinamos!  As matamos para comer! Viste selvageria maior?
- Não…
- Outro dia vi como elas se comunicam entre si. De repente, em determinada hora, sem falar qualquer língua de sinais, elas se afastam em grupo, caminham na mesma direção e vão comer!
- Há já sei é o tal reflexo condicionado do Pavlov.
- Que nada acho que elas podem estar vivendo num mundo simultâneo. Nunca esqueci o choro da Ofélia, a vaca da minha infância que tinha perdido o terneirinho! Ela batia com a cabeça na cerca e berrava de tristeza. Ainda ouço aquele choro…
- Não tens mesmo mais nada o que fazer para vires me contar essas histórias absurdas de vacas!
- Pois eu acredito! Quero virar a vaca do livro Zé Colado, que ao ser colado para virar um homem, foi colado com cabeça de vaca! Viu só?
- Entendi então Maninha, mentaliza o encontro das vacas em paz, pode ser que vires uma delas!
-Duvidas?

terça-feira, 24 de maio de 2016

Boca suja?



Marinalva mora sozinha. Para se consolar fala para si mesma que todo ser humano mais cedo ou mais tarde, principalmente, mais tarde, terá de enfrentar  a solidão.
Na falta de interlocutores mais habilitados puxa conversa com Tolinha. Como adorável cachorrinha que é, Tolinha escuta sua dona embevecida sem discordar jamais!
A conversa fica animada quando Marinalva está na direção do carro, enfrentando aquele transito selvagem! É verdade, não aceita provocação e não briga alto com os outros motoristas. Mas diz para si mesma em animada conversa;
- Panaca! Que cortada heim? Idiota! Mas tua mãe não te educou não é mesmo? Que o raio te parta!
Não sei o porquê mas Nalva adora imaginar que um dia o raio vai partir aqueles pestinhas mal educados - na opinião dela, é claro!
Eis que de repente ouve-se a voz da Gêmea:
- Mas o que é isso Nalva? Percebeste que a mal educada és tu? Onde se viu dizer isso tudo para os outros? Que barbaridade!
- Pois Maninha, eu quero mesmo é que eles vão para os quintos dos infernos!
Os desforos não páram aí. Nalva tem horror a palavrões bagaceiros. Adora mesmo é mandar os outros à:
- La grand puta ou à la puta que te parió!
E deu ! Não precisa acrescentar mais nada!
Gêmea:
- E porque irmã minha não falas de flores? Isso não é coisa dos paz e amor dos anos 60? Eu gosto de flores, mas nessa hora nunca penso nelas…
- Porque não pensas nos motivos pelo quais não compras orquídeas?
- Mas que qué isso ermã! Nada a vê né?
- Como não? Sais da agressão e podes até falar de pão não é mesmo?
- Só se for para rimar! Sei não, sempre achei que la grand puta em espanhol era tão sonoro que perdia o lado negativo que significa em português !
- Por isso, na hora do sufoco o melhor é mandar o  outro à la puta que te parió!!!
- De onde tiraste isso maninha?
- Se é que existe : Do fundo da minha caixinha de memórias!