sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O Círculo de Facas

Cena: Largo Glênio Peres,  defronte ao Mercado Público. Dia 22 de fevereiro de 2014, 14,00 h.
Se existe alguma coisa que é a cara de Porto Alegre, é o círculo de pessoas em torno de algum "famoso artista" que apresenta espetáculos ou demonstra produtos milagrosos! 
Desta vez não foi diferente. Dois homens fazem uma demonstração de malabarismo. Os espectadores fecham o círculo. Os baixinhos se esgueiram para apreciar o espetáculo. A platéia simula o palco central, onde se apóia o círculo de facas. 
O artista que promete se jogar no círculo de facas é musculoso e tatuado. Marinalva ri daquele ridículo. Decide parar e olhar - afinal, está com o genro - não vê problema. Se diverte com aquilo tudo. Lembra que anos atrás, não achava a menor graça. Sentia-se na obrigação de ignorar aquele tipo de espetáculo! Agora o mundo mudou e Marinalva nem liga se é brega ou não. 
O outro artista, baixinho, toma a palavra e discursa alto, afirmando que as pessoas se levantam com dor nas cadeiras, mas cadeira não tem dor! He! he! he! Desafia a platéia a passar pelo meio das facas, que nem seu amigo, que poderia arranhar a garganta ou ter o pulmão espetado!
- Bem amigos - afirma o baixinho- vocês deveriam comprar esta pomada milagrosa porque ela tira toda a dor.  Você aí amigo, poderia passar depois do banho. Peça para sua mulher passar com as mãos, devagar... Se não tem uma companheira, peça para um amigo de sua confiança passar em você! 
- He, he,  he! - Marinalva dá boas risadas! 
-Esta foi muito boa - Pensa.
- Prestem atenção, meu amigo vai passar dentro do círculo de facas, se não der certo ele vai ficar espetado, na garganta e no pulmão! Mas vejam ele é feito de elástico!
O amigo garboso, faz pose, demonstra seu estilo, mostra músculos e tatuagem.
- Vejam, ninguém acredita, ele abre as pernas em 180 graus. E o amigo faz piruetas de todo tipo. 
Marinalva pensa:
- Credo e eu que treino tanto, não chego aos pés deste cara!
Os minutos se passam e o grande artista sempre está na iminência de passar pelas facas. Tudo já vai acontecer. 
Aquilo começa a mexer com os nervos de Marinalva! 
- Mas e agora? Por que eu me estresso com esta bobagem? 
Marinalva pensa no que já vai acontecer e não acontece!
- Ai meu Deus!
E o baixinho continua:
- Tem gente que não gostou porque não viu rolar sangue! Mas amigos, nós estamos aqui para divertir os vocês! Lá pelas tantas cansa daquela história toda e pensa: 
- Quem sabe a gente volta no próximo sábado para ver o que acontece? 
A Outra que Mora Dentro Dela fala:
- Marinalva, será que tu pensas que o mundo pára enquanto não estás olhando? 
- Por que não? O mundo  está mudando tanto que a relatividade do tempo de Einstein pode estar bem mais perto de nós, e fazer parte do espetáculo do artista do círculo de facas do Mercado Público de Porto Alegre. Não achas?
- É, né? Só que ninguém sabe disso, só tu Nalvinha!

P.S. Depois do caso passado Marinalva descobriu o filme no You Tube: Artista Pula Círculo de Facas. Não percam!

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Marinalva em apuros



Marinalva quase cai em desgraça. Como aconteceu, não sabe. Deslizando para entrar na academia de ginástica, ouve de repente o raspão! Tum! Seco! Batido!
Qual delas disse aquilo? Não lembra.
- Nem olha Marinalva, desta vez não vais dar uma de boba. Ninguém viu! Limpa o teu carro e segue adiante!
Pelo barulho que deu tinha que ser pouquinho mesmo. Surpresa, Marinalva deu alguns segundos de atenção para aquela vozinha insensata. Olhou e limpou com um paninho. Foi quando ela viu as asinhas de corredor no carrinho branco. Mas n-ã-ã-ã-ã-o-o-o-o-o-o! Não acredito!
- É sim Marinalva – diz a Gêmea – bateste no carro da professora!
Bom, desta vez Marinalva fala por ela:
- Chega de dar atenção para essas tagarelas que só dizem bobagens! Desonesta, mas não tanto!
- Não acredito! É o carro da minha professora! Deus, que alvoroço! Que polvorosa!
- Como pudeste fazer isso Nalvinha? Fala a Outra que Vive Dentro Dela.
- Há não sei, mas vou resolver isso logo!
Junta daqui e dali pedacinhos de coragem e fala. Enquanto vai explicando, olha nos olhinhos azuis da professora. Eles vão aumentando de tamanho. Marinalva sabe que aquele carrinho é como o Oizinho, os dengues da professora.
- Tebi, (é o nome da professora) peço desculpas, mas bati no teu carro. Mas agora é só chamar o meu super corretor! Eu pago, com ou sem seguro! Não te preocupes. 
Marinalva só sabe que todas se calaram, da Vozinha Infame à Desonesta. A que Mora Dentro Dela e a Gêmea permaneceram mudas.
Por hoje chega. Marinalva não quer ouvir falar nem da Honesta ou da Desonesta. Não quer saber da Calhorda, da Medrosa, da Ingênua, nem dA Que Quer Agradar, muito menos dA que Quer Salvar o Mundo. Que se calem todas! Teve que agüentar a emoção no osso! Ainda bem que no dia seguinte pode dar uma choradinha no cinema.
E hoje, nossa Marinalvinha dormiu como um anjo, de boca aberta (coisa que ela sabe que faz, mas detesta), no ônibus, indo para o trabalho. Nada como um dia após o outro.

O Botão de Pânico




Marinalva tem um carro simples, do seu tamanho. Em geral dá tudo certo com o Oizinho. Pois é batizou o carro e o considera parte da família. Ontem Nalva foi tomada pelo pânico. Enfim, botão com esse nome ela sabe que existe no banheiro do Museu Iberê Camargo.
Madrugada, apressada estaciona defronte ao portão de entrada do prédio onde mora. Aciona o controle remoto. O portão não se mexe.
- Mas como, logo ele que vivia fazendo igual ao do Ali Babá e os Quarenta Ladrões! Tipo Abre-te Sésamo! Bastava passar perto para subir sem ao menos ser necessário acionar o controle remoto! Mistério!
E agora? Marinalva toca duas, três vezes e nada! De repente, o susto, o Oizinho acende as luzes, tem vida própria, dispara o alarme, na frente da noite, do silêncio e dos vizinhos que dormem.
- Não acredito! O que foi isso?
Aciona de novo para aquela porcaria calar a boca! O controle remoto salta na mão de Marinalva, os dedinhos apertam qualquer botão, tanto faz desde que o Oizinho pare!
O portão não abre e ele continua firme berrando. Marinalva abre a porta do carro. Pior, o som agora é mais um e bem estridente!
Então, bate a porta e vai até à guarita.
Para ela o tempo para, parece que se passaram duas horas até o homenzinho sair de dentro de seu esconderijo e espiar... com cara de quem não sabe o que fazer...
Marinalva volta e como num jogral, quando o porteiro abre o portão, o carro volta a gritar e se apaga. O painel parece uma árvore de Natal cheia de figurinhas luminosas. Só depois de muito tempo, percebe que se fechar a porta o segundo som estridente se apaga!
Depois desse espetáculo de luz e som protagonizado pelo carro, pelo portão e sob a batuta de Marinalva, ela ouve a vozinha:
- Calma Marinalva, se te acalmares tudo vai dar certo!
- Bem, vou tentar, acho que o ladrão não vai se lembrar de mim e passar por aqui,  justo agora.
- Claro guria, espera um pouquinho.
E mais uma vez Marinalva aperta o “maledeto” botão, o alarme para, o motor dá o arranque, o portão se abre e nossa heroína entra.
- Aleluia! Precisava tudo isso Nalvinha?
- Pois é né? Sabe como é...
Quando Marinalva entra em casa se passaram 5 minutos além do horário habitual – Nalvinha faz tudo igual para não se atrapalhar...
- Risos.
Todas elas, desde a Gêmea até A que Desculpa a Todos, colocaram a mão na boca e riram...
- Não liga Nalvinha vamos ver se nos próximos 50 anos a gente tira esses 5 minutos do cenário de nossas vidas!
- É isso mesmo, mas podem deixar por alguns anos a menos, não me importo.
No dia seguinte testa o portão, que abre como se nunca tivesse havido algum problema. O porteiro explica, não se preocupe Dona Marinalva, o porteiro era novo e a senhora deve ter apertado o botão de pânico.
- Botão de pânico? Tinha esse botão? Não! Quer dizer que eu carrego um botão de pânico na bolsa?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O marido perfeito



Você não vai acreditar no que aconteceu com Marinalva, ontem quando viajava de ônibus de volta para casa.
No banco da frente estava uma moça agarrada no seu celular, o tempo todo. Marinalva só via aquela mãozinha e aquele dedinho que dedilhava o teclado com a maior rapidez - refletidos no vidro da janela. Lembrou da aula de francês do “Cancer de Cerveau” .  De início não entendia pensava que “cerveau” era cervo, bambi. E as coisas não fechavam. Era câncer no cérebro Marinalva! O texto recomendava não ficar brincando com o celular para prevenir a doença!  Bem,  a moça da poltrona da frente não estava nem aí! Dedilhou o que deu naqueles minutos!
De repente Marinalva grudou o ouvido e escutou!
-Oi querido tudo bem? Estás muito cansado? Então não vai me buscar na rodoviária! Vai para casa! E me espera com uma comidinha. Estou com muita fome!
 Marinalva não acreditou! Ela não só tinha marido como dispunha dele! Mulher sortuda!
- Há querido! Não esquece, vai para casa e me espera com “inhoque de batata”!
- Essa não! Não acredito! Ela mandou o marido fazer  “ inhoque de batata”, de noite! E ele bem mandado foi cozinhar!  Mas o que é isso? - Pensou Marinalva.
- Ainda existe na face da terra um espécime dessa estirpe? Deve ser uma mutação! – Pensa.
- Será que é bom ou ruim? Estou tão confusa que não sei o que pensar... – Remói Marinalva.
- Meu Deus! Não agüento mais. Preciso conferir o visual da moça da poltrona da frente! Deve ser algo! De tão poderosa!
Finalmente o ônibus pára na rodoviária. Marinalva guarda seus pertences e espia com o canto do olho a moça da poltrona da frente.
- Mas ela nem é tão bonita... Loura, de cara amarrada, pálida e sem batom. Há! E lógico, tem uma barriguinha, ancas largas, calças pretas e feias e um sapatinho de salto. Medíocre.  – Pensa Marinalva.
- Já sei, o marido deve ser daqueles obedientes, que gostam de ser mandados.
No empurra-empurra da saída, Marinalva não dá o lugar para a moça do marido cozinheiro.
- Porque que ela fez isso? - Se pergunta a irmã gêmea?
- Há! já sei, é despeito imaginário... Dá até para escrever uma crônica e mandar para o Luiz Fernando Veríssimo ler.
- Será que ele vai gostar? - Se pergunta Marinalva.
- É preciso estar no páreo irmãzinha! - Responde Marinal-V2 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O diálogo entre a esquerda e a direita



O diálogo entre a esquerda e a direita

Desta vez Marinalva ficou de fora só observando o diálogo entre a esquerda e a direita. Lembrou-se dos 

tempos de faculdade quando tinha sérias dúvidas sobre quem era mais antipática, a esquerda ou a direita.
Se o Otsugua da direita era terrível o que dizer do Issutreb, a criatura mais mal educada que ela já tinha 
visto? Marinalva nunca entendeu como era possível um homem tão insuportável ter um filho tão
simpático!
Quis o destino que muitos anos depois o filho do dito cujo aparecesse na faculdade como seu aluno

Hoje o diálogo foi diferente , mas não menos tenso:
A mão esquerda falou para a direita
E- Há, finalmente vejo meu valor reconhecido! Imagine você sua totalitária vaidosa, que pensava que
era toda poderosa! Tiveste que te humilhar e aceitar minha proteção
D- Que bobagem é essa?Logo hoje que sofri uma anestesia axial? Como podes ser tão ingrata e me 
tratar desse jeito?
E- Não te faças de vítima, eu bem que te abracei para te proteger quando mais precisaste.
D- E não poderia ser diferente. Lembras , na hora da anestesia, quando o médico mandou nossa Eu 

levantar o braço direito?
E-He, he, he, ela bem que tentou, não conseguiu. Até sentiu que levantavas em ângulo reto! Simples imaginação. Estavas duro como uma pedra, caídaço e sendo ensaboado com saibro!

D- Saibro nada, ó criatura! Eu e meu braço estávamos anestesiados!
E-Pois eu estava alerta, de vigília te cuidando. Vi tudo, mas infelizmente não me lembro de nada!
D- Viste como és imbecil? E eu que queria tanto que me contasses o que se passou!
E- Bom o que eu penso é que deverias me agradecer. Enquanto estavas literalmente entalado eu treinei,

 há treinei muito para te substituir. Fiz nosso Eu, nossa dona- acho que somos que nem dois 
cachorrinhos, não é mesmo? - se virar para o lado enquanto dirigia o carro. Então, heroicamente, te 
substituí nas marchas. Na primeira até que deu certo, na segunda e terceira idem, mas o problema foi, 
que te entregaste por completo no segura na lomba!
 D- Credo sua ingrata, não imaginas, me rebentei por dentro, o cisto da nossa dona pode até voltar e 

vou dizer para ela que tu és a única culpada!
E- Seja boba mesmo, como se ela pudesse acreditar! Sabias que estou treinando a caligrafia, já que te 

tornaste uma inútil?
D- He, he, he vi tua caligrafia! Não me faças rir. Vão se passar muitos e muitos anos e ainda assim, não 

vais conseguir desenhar uma letra de arquiteto igual à minha!
E- Deus que me perdoe, letra de arquiteto! Só se for de arquiteto que anda matando cachorro a grito!
D- Não fala assim de nossa dona, ela pode ouvir e se ofender!
E - Lá vem ela, vamos parar de brigar, não notaste que a pobrezinha está fragilizada e para ela vai ser 

muito difícil administrar essa nossa rivalidade.?
 D- Vamos deixar nosso acerto de contas para quando estivermos sozinhas longe dela?
 E- Mas Deus que me perdoe, nunca vi tanta burrice! Será que pensas que somos como a mãozinha da

 Família Adams?
A Direita finge que não ouve e responde:
 D- Bom então vou te dar uma trégua, estou mesmo querendo e precisando do teu carinho e proteção. 

Assim faremos nossas dona Eu mais feliz não é mesmo?
 Marinalva cruzou as mãozinhas e continuou caminhando:
 E-Vem Maninha, dá a mãozinha!

D- Hum, to indo!