quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Quatro segundos de pane

Todo dia pipoca nos ouvidos de Marinalva a opinião das dezessete. 
- Meu Deus, porque vocês falam tudo, só depois dos fatos consumados?
- Nalva , é que fazes tuas bobagens tão depressa que nos falta tempo para nos refazermos dos sustos!
- Mentira! isso não é verdade!
- Ha! não é?
- Pois então escuta só estas quatro panes!
- Não acredito! Falem então! Me digam!
- Bem, deixa eu lembrar, primeiro foram aquelas duas com o gerente do banco! Com todo esse calor, foste ao banco porque não entendeste que o resgate que aparecia no extrato é o mesmo que ele havia dito que cairia, automaticamente, quando faltasse dinheiro.
- Pois é, não entendi, tinha outro nome…
- Depois esqueceste que já tinhas sacado o dinheiro e disseste para ele:
- E agora, como vamos fazer para sacar o dinheiro se ultrapassa o limite diário?
- Ele não acreditou - Nalvinha - pensou que eras uma pateta total, deu uma risadinha e respondeu:
- Mas D. Marinalva, já sacamos o dinheiro!
- Ha! é mesmo...
- Cá pra nós Nalvinha,  a terceira pane foi engraçada, lembras?
- Entraste de carro no super, aconteceu algo diferente, o guarda estava ao lado da cancela de sacar o ticket de estacionamentop, aquele que perdes sempre! Pois é, ficaste parada, não fizeste nada por alguns segundos… deu pane maninha? Aí o guarda prestativo, puxou o ticket e te entregou!
Mas a quarta pane, há! a quarta foi a mais divertida! Lembras quando subias a tua rua em direção ao centro, aquela,  movimentada?
- Deixa! essa eu conto, pois a culpa não foi minha!
- É, não foi, a culpa foi dessa tua mania de parar o carro para os  pedestres passarem, ou dar a vez para outros motoristas! É essa tua mania de ser civilizada no trânsito!
- Irmãzinhas foi assim, eu subia a rua movimentada, e os carros que vêm de ruas perpendiculares não têm a preferência. Assim, parei meio longe, e fiz uma mesura tipo japonesa educada, como quem diz, passe por favor! O outro motorista ía passar, de repente, não entendeu, titubeou e pum! o carro que vinha atrás  bateu na traseira dele, digo, do carro!     
 -Irmãzinhas, só vi que o cara parou, abriu a porta  e desceu para brigar com o outro!
- Por esta não esperavas né Nalvinha?
- É, saí ligeirinho, mas tive que rir bem baixinho...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Marinalva mais dezessete

Marinalva somente conseguiu guardar o que ele disse:
- Pois é Marinalva , se me pagares com antecedência, farei, só para ti, um belo desconto!
Nesse momento a filha do LinoApril pensou consigo mesma:
- Pois é vou ter que aceitar a proposta dele, pois este cara cuidou tão bem da Tolinha quando ela estava doente...
Gêmea - Como filha do LinoApril sentes que tens obrigação para com ele , não é mesmo?
- É sim!
E, como quem vai para o cadafalso Nalva preenche o cheque, pensando que 10% de desconto ela ganharia em qualquer loja, sem ter que pagar antecipado...
A que Vive Dentro Dela - Mas, Marinalva! Como pudeste fazer tal idiotice? Vê se alguém , durante toda a tua vida, fez igual, pagando alguma coisa para ti, antes da hora! Se o homem sumir e não vier pegar a Tolinha para cuidar  dela, nem sequer sabes o endereço onde mora! Sabes o sobrenome dele por acaso?
- Bem, posso perguntar para a gestora, pois devo ter dito o sobrenome quando autorizei a entrada do dito aqui no prédio.
Gêmea - Não é possível ser tão tolinha, deve ser identificação pois deste o nome de Tolinha para a cachorrinha!
Marinalva- Acho que vocês têm razão, bem que a minha mãe dizia que não se deve pagar ninguém antes de terminar o serviço!
Gêmea- Pois é Nalvinha, nem precisa ser psicóloga para saber que não se deve pagar niinguuuééém antecipado!
A Que Vive Dentro Dela- Viste? Mandaste mensagem para ele e a criatura nem respondeu, não foi?
Gêmea-  Mas o cheque foi descontado ligeirinho!
Marinalva- Chega! Não aguento mais tanta angústia e sofrimento!
A Mais ou Menos Equilibrada - Pois é Marinalva, viste, se até a tua mãe te alertava...Não liga, pensa daqui para a frente e pensa também que se quiseres, na mesma hora podes dar um basta nele e procurar outra pessoa para a cuidar da Tolinha. Com o passar do tempo nem vais te lembrar do prejuízo!
A que Vive Dentro Dela- O duro não é perder o dinheiro irmãzinha, é ser e passar por Trouxa, passar por Boba.
Marinalva- Lá isso é verdade! Mas eu juro! Nunca mais vou pagar adiantado para ninguém!
Trrrim! trrrim!
Marinalva- Ouviram?  É o celular me avisando que tem mensagem:
O Cara - Marinalva! Me desculpe, só vi tuas mensagens agora! O meu cel caiu no chão e trancou!
Marinalva- Viram? Nem tudo está perdido ! Mas a Mami estava cheia de razão quando dizia;
Voz da Mami: Vem cá minha filha! Vem para cá com a mãe! Vem Patetinha da Mamãe!
Marinalva- Acho que vou chorar...

As 17Marinalvas em coro - Chora Marinalva... chora...

Morangos Silvestres


Marinalva se aproxima da sinaleira e ouve:
- Moranguinhos, quem quer comprar moranguinhos?
Marinalva- Ora, onde se viu? Moranguinhos! Detesto moranguinhos! Enormes, cheios de veneno e ainda por cima, ácidos! O Bergman era um chato! Só ele mesmo para pensar em Morangos Silvestres.... Onde se viu? Catar Morangos Silvestres na floresta! Vê  se eu posso? Você consegue me imaginar catando moranguinhos numa floresta gelada, escura e úmida? Só o pobre personagem do Bergman, o velhinho desorientado! Como era mesmo o nome do ator?
Gêmea- Deves estar tão esquecida e desorientada quanto ele irmãzinha!
Marinalva- Para Bergman, não enche o meu saco! Aqui em Porto Alegre, com esse calorão e com tudo o que eu tenho e quero fazer não tenho tempo para isso , nem para teus moranguinhos, viste Bergman?
As 17 Marinalvas não falam, apenas sacodem a cabeça... e respondem:
- Victor Sjostrom, Marinalva! O nome do velhinho era Victor Sjostrom!
- Credo! Quer dizer que não era o Max Von Sidow?
- Não era não !












!
- Marinalva- Ha!


A Garrafinha d’Água


Você viu o filme de terror japonês, “O Chamado”? Aquele que mostrava a menina
assassinada pelos pais e jogada no poço? O espírito sem paz voltava, aparecia para
crianças, sob a forma de água, provocando desastres mortais!
Marinalva acredita que não existem espíritos malignos à sua volta. Só o que sabe, é que
sempre acontecem acidentes com água. Esquece a garrafinha d’água em qualquer lugar ou
deixa-a semi aberta dentro da bolsa. Outra vez, a mochila pingava, o Note estava
dentro,imagine o desastre.
Gêmea- Como foi Marinalva, que transformaste o doc. de condomínio emmeleca que
pingava água?
Marinalva - Não sei, só sei que levei horas tentando pagar aquela conta...
Gêmea- Quantas garrafinha pagaste e esqueceste nos balcões de compra?
Marinalva – Perdi a conta!
A que Vive Dentro Dela- E a última? Como foi?
Marinalva- Fiquei ‘desolée’! Não consigo viajar sem minha garrafinha d’água. Acreditem,
deixei a aguinha em cima do banco do estacionamento!
O ônibus arrancou, olhei pela janela e lá estava ela. Nunca me pareceu tão limpa e
cristalina, brilhando sob a luz do luar. Tadinha, nunca mais encontrou sua dona.
Gêmea- E nunca mais te recuperaste desse golpe não é mesmo?
Marinalva- Não, morro de saudades da minha garrafinha d'água...

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O Marido Perfeito

Você não vai acreditar no que aconteceu com Marinalva, ontem quando viajava de ônibus de volta para casa.
No banco da frente estava uma moça agarrada no seu celular, o tempo todo. Marinalva só via aquela mãozinha e aquele dedinho que dedilhava o teclado com a maior rapidez - refletidos no vidro da janela. Lembrou da aula de francês do “Cancer de Cerveau” .  De início não entendia, pensava que “cerveau” era cervo, bambi. E as coisas não fechavam. Era câncer no cérebro Marinalva! O texto recomendava não ficar brincando com o celular para prevenir câncer no cérebro!  Bem,  a moça da poltrona da frente não estava nem aí! Dedilhou o que deu naqueles minutos!
De repente Marinalva grudou o ouvido e escutou!
-Oi querido tudo bem? Estás muito cansado? Então não vai me buscar na rodoviária! Vai para casa! E me espera com uma comidinha. Estou com muita fome!
 Marinalva não acreditou! Ela não só tinha marido como dispunha dele! Mulher sortuda!
- Há querido! Não esquece, vai para casa e me espera com “inhoque de batata”!
- Essa não! Não acredito! Ela mandou o marido fazer  “ inhoque de batata”, de noite! E ele bem mandado foi cozinhar!  Mas o que é isso? - Pensou Marinalva.
- Ainda existe na face da terra um espécime dessa estirpe? Deve ser uma mutação! – Pensa.
- Será que é bom ou ruim? Estou tão confusa que não sei o que pensar... – Remói Marinalva.
- Meu Deus! Não agüento mais. Preciso conferir o visual da moça da poltrona da frente! Deve ser algo! De tão poderosa!
Finalmente o ônibus pára na rodoviária. Marinalva guarda seus pertences e espia com o canto do olho a moça da poltrona da frente.
- Mas ela nem é tão bonita... Loura, de cara amarrada, pálida e sem batom. Há! E lógico, tem uma barriguinha, ancas largas, calças pretas e feias e um sapatinho de salto. Medíocre.  – Pensa Marinalva.
- Já sei, o marido deve ser daqueles obedientes, que gostam de ser mandados.
No empurra-empurra da saída, Marinalva não dá o lugar para a moça do marido cozinheiro.
- Porque que ela fez isso? - Se pergunta a irmã gêmea?
- Há! já sei, é despeito imaginário... Dá até para escrever uma crônica e mandar para o Luiz Fernando Veríssimo ler.
- Será que ele vai gostar? - Se pergunta Marinalva.
- É preciso estar no páreo irmãzinha! - Responde Marinal-V2 

D. Marinalva



D. Marinalva vivia em San Antonio, com a filha. O corpo de D. Marinalva já atingia a faixa dos 48. Lembrava a cintura da mãe da Luluzinha. Não praticava exercícios e a cinturinha aumentava alguns centímetros por ano. Faceira como ela só D. Marinalva não sabia disso, nem notava esses detalhes. Diz ela que viveu sim o preconceito de ser chamada de mulher separada. Bem mal vista naqueles tempos. Deixaram de falar com ela quando se separou de seu Marcolino. Este sim um mulherengo e namorador de marca maior. D. Marinalva sofreu muito com as artes de seu Marcolino. Ela jurou que agora só se dedicaria à filha, a mimosa Cristalina. A garota ganhou esse nome por ser branquinha e transparente como um cristal.  
D. Marinalva não conseguia esconder seu entusiasmo por alguns homens muito, muito mais jovens do que ela. Nunca esqueceu aquela tarde, estava com Cristalina na janela e passou aquele cara lindo! Aquele cara que cuidava da farmácia. Chamou Cristalina e falou alto, sem querer:
- “Olha milha filha para mim não existe homem mais lindo! Ele é bonito e gostoso como um chocolate!”.
- ”Para mim, ele e aquela atriz da Globo, sabes quem é filha? Aquela atriz...! Os dois, para mim são os mais lindos , parecem mesmo uns chocolates deliciosos”.
D. Marinalva esquecia tudo. Quando precisava dizer o nome de algum ator ou atriz era um desastre. Não se lembrava...
D. Marinalva pensava:
_ ”Que negão mais lindo Deus meu! que pedaço do bom caminho! He, He, He!”
Isso ela pensava que não deveria sequer pensar, mas pensava. Enfim podia ser mal interpretada. Podiam dizer que era racismo. E era bem o contrário... Ou que ela era uma mulher assanhada.
D. Marinalva se preocupava muito com o que os outros podiam dizer. A filha sacudiu os ombros e não deu grandes ares de importância. Mas, desde esse dia, aquele moço cor de chocolate que D. Marinalva não conseguia sequer olhar, pois estremecia, pois não é que ele passou a lhe dirigir um sorriso? Atravessava a rua quando ela passava só para lhe dar um “oi”  muito comprido...Quando encontrava com ele no supermercado, esquecia o que estava fazendo , tropeçava nas frutas, derrubava tudo! Era um Deus nos acuda!
D. Marinalva teve que trocar de endereço, nunca mais viu o homem de chocolate. Um dia ela arranjou coragem e comentou com a filha:
-Te lembras - minha filha- daquele moço mais lindo e gostoso que chocolate?
- Claro, mãe foi o dia que passei a maior vergonha da minha vida. Ele ouviu tudo do outro lado da rua! Claro não é? Falas gritando!
D. Marinalva pensou?
- Será?
Outro dia D. Marinalva compareceu à inauguração do salão de beleza. Adivinhe quem estava lá?  O homem de chocolate. D. Marinalva não conseguiu se aproximar dele. Pensou ir embora correndo. Mas seus pés não se mexiam.  Não é que o moço tinha engordado? Apesar dos pesares... Tinha chegado o dia de D. Marinalva?  Se ela não se aproximou, ele foi chegando devagarinho,  que nem a Tolinha -  a cachorrinha de D. Marinalva-  de tocaia, esperando para dar o pulo do gato.

Em casa D. Marinalva era um túmulo. Cristalina perguntou, quis saber detalhes. D. Marinalva sequer deu aquele sorriso enigmático que seria uma verdadeira confissão. Ficou muda...