quinta-feira, 24 de abril de 2014

I want to be alone!


Marinalva faz de tudo para parecer uma pessoa normal. Mas sabe que no fundo tem alguma coisa inexplicável.
- O que será? Ensimesmada, fala consigo mesma:
- Porque será que a seguradora não aceita firmar um contrato comigo?
- Marinalva! Queres dizer que não tens a menor ideia do porque? Risos.
- É bem verdade, não passa ano que eu não dê uma batidinha no carro. Mas  que fazer? Quase sempre os outros batem em mim! Nessa ou em muitas horas , será que por alguns segundos saio do ar? Será?
É o desligamento da máquina Marinalva! He! He! He! Intromete-se A que Vive Dentro Dela.
- Aconteceu ontem… Lembra-se Marinalva.
- Pois é, lavei a caixa de óculos novos junto com minha bolsa. No dia anterior, deixei a torneira aberta uma tarde inteira. Depois me desculpei com Deus e com o Guaíba. Finalmente, dei graças por não inundar o apartamento.
- Hah, e tem aqueles dias em que perdes o ingresso do cinema antes de entrar, não é Nalvinha? Esta parte também esqueceste? Fala a Gêmea.
- Vocês lembram irmãzinhas, o dia em que ela perdeu o ticket da bagagem, quando chegou de viagem?
- Não lembro de nada....Finge Marinalva.
- E o dia em que ela perdeu a passagem que deveria entregar para o motorista no final da viagem? Lembras Nalvinha?
-Paaaareeem! Chega! Calem essa boca suas fofoqueiras! Não agüento mais! I want to be alone! Como dizia a Greta Garbo!
- Nalvinha quando e onde ela falava isso? Em que filme?
- Agora vocês estão mesmo me enchendo o saco! Sabem de uma coisa? Perguntem para o Merten!
P.S.-Merten é o melhor crítico de cinema do Brasil. O cara
é uma enciclopédia ambulante. Não tem nenhum fichário. Guarda tudo na cabeça!
- Pois é eu queria ter um ex- marido que nem ele! He! He! He!
- A troco de que Marinalva?



sexta-feira, 18 de abril de 2014

Ele não falou só com Noé

Um dia, depois de dezessete anos Marinalva descobriu! Engraçado Dezessete é o nome deste Blog! Pois é depois de dezessete anos,  Marinalva descobriu que Deus não falou só com o Noé do dilúvio. Ela passou a acreditar piamente que Deus falou com ela e fazem mais de três anos! Como percebeu só agora? Não sabe! Só sabe que Deus lhe mandou a Preta-Mel de volta. E isso aconteceu há três anos atrás, justo no dia do seu aniversário! Credo, que emoção!
Desta vez a Preta-Mel veio sob uma nova embalagem. Mas de uma coisa Nalva tem certeza, a cachorrinha Loli, que ganhou da ONDA é uma Preta-Mel! É linda! Sapeca como ela só! Tem tudo para se dizer que lembra a verdadeira PM. Não cresceu muito, e ficou tipo policial de pernas curtas. Marinalva sempre pensou que Deus fez um tipo de brincadeirinha,  a cachorrinha tem pernas curtas para combinar com a dona, que com certeza não possui "longas pernas"!
Loli tem o pelo azul ruano, preto, possui a cara - a carinha é claro, para usar a expressão de Nalva- e as orelhas pontudas cor de mel. As patinhas também são douradas! 
Você notou que Marinalva trata seus bichos como seres pensantes? Nalva acredita  que se você parar para pensar nas entrelinhas vai descobrir um mundo novo, cheio de mistérios e coisinhas que ficam entre você e os espíritos. Por que não?  
E nossa Nalvinha e suas dezessete outras, adoram descobrir esses pequenos mistérios do dia a dia que podem enriquecer a vida de qualquer um! 

Um dia muito especial


Um dia muito especial

Marinalva lembra o ano de 1997. Estava em casa, com a mãe e a filha, quando tudo aquilo aconteceu e aqueles pensamentos lhe passaram pela cabeça. Aliás periodicamente  pensava no seguinte:
Um dia tive a certeza de que a gente nunca vai conseguir viver um dia muito especial, como se fosse o último de nossas vidas. Afinal, o que é um dia muito especial?
Nos perguntamos isso tantas vezes,  que terminamos adiando para sempre o viver esse momento  tão especial.
E a gente termina chegando lá...  Ou está quase na porta, no limite desta vida? E agora?
Preciso viver meu dia muito especial, mas me sinto incapaz de fazê-lo! Bem, então vou morrer sem vivê-lo.
Marinalva pensa que isso tudo termina se transformando num papo furado! De quem? De todo mundo? Ou de quem chegou no limite?
Posso dizer que estive lá? Ou estive muito perto? Conclusão, não existe isso, sabem o que é um dia muito especial?
É poder levantar da cama, de manhã, muito rápido, de um sopetão; e nosso belo corpinho aguentar tudo, sem dor! Beleza!
É poder caminhar até a porta do quarto e acordar a filha, que apesar dos seus 17 anos, dorme com o mesmo jeitinho angelical dos seus dois aninhos.
É fazer cafuné no cachorrinho. É ver o sol nascer todos os dias. Isso já é muito especial mesmo!
O dia em que a conheci, para mim, foi especial. Ela me viu, era preta, sem graça, quatro patas e um rabão.
Veio para cima do cachorrinho desta Dondoca que vos fala. Peguei meu doguinho, puxei, mostrei que não queria papo com vira-latas, como sempre faço. Tenho pavor de sarna. No fundo, tenho dó, queria ser uma fada madrinha e curar toda sarna e toda dor. Impossível. Então ajo como qualquer reacionária! Poderia ser diferente? Não sei...
Ela era toda alegria, saltava, queria cheirar e brincar com meu cachorrinho de raça. Ele quase explodiu de emoção! E eu lá, feito boba, puxando a coleira enquanto os dois viviam a felicidade de brincar e se cheirar.
Reclamei cada vez com menos convicção. Mas não é que ela era graciosa em seus movimentos? O pelo azul ruano brilhava ao sol. Me senti o próprio Cantalício, aquele andarilho – era um mendigo?-  que caminhava maltrapilho, acompanhado por uma matilha de cachorros.
Ela fingia que aceitava o meu rechaço, de repente, ignorava tudo e se comportava como se fosse minha. E assim chegamos em casa. Subi. Olhei pela janela, lá estava ela me esperando.
Fui até o supermercado, a estas alturas estávamos íntimas. Tentei colocá-la dentro do carro. Mas como se era uma selvagem? Não andava de carro!
Voltei do super, lá estava ela me esperando. Nenhum morador no prédio, só eu e minha mãe. Fui até o estacionamento, ela comeu e bebeu água. Estava feliz, tinha olhos cor de mel duas marquinhas brancas - minúsculas- no lombo e duas cor de mel nas patinhas. Preta - Mel, esse era o seu nome.
E agora vamos para o apartamento? Empurrada pelas escadas, ficou sem jeito, mortificada... Pior, sem quere pisei na minha Preta. Aí sim, dever ter pensado que tudo  voltara ao normal, com certeza levava porrada todo dia!
Com calma, convenci-a a subir. Entrou no apartamento. Comeu um lauto almoço e ficou sentada como uma esfinge. Mas era a própria esfinge, que majestade! Tentei colocar a coleira, ficou chocada e triste... Mas afinal, deve ter pensado: 
- O que era aquilo? Não estava entendo nada!
Aí acordou e resolveu correr atrás do meu Keyrril . O que era aquilo? Meu apartamento viraria uma bagunça! Uma velhinha se arrastando pela casa e dois cachorros feitos loucos a correr e esculhambar! Como Preta-Mel parecia grande ali dentro!
Fui caminhar com minha nova cachorra Preta sem coleira! Ela fazia tudo o que eu mandava! Meu Deus! Eu estava feliz! Até os carros pararam para a Preta passar!
Decidi comprar mais comida para a minha amiga. Era uma comilona! Pronunciei o meu mágico FICA! Entrei no super angustiada. Ela ficaria? Os guardas correriam com ela? E o gerente que estava ali?
Saí, chamei-a. Silêncio... Só alguns meninos de rua brincando. Não, não viram a Preta-Mel. Ela estava ali... cheirando... Sumiu, ninguém viu. Terminou ali o meu dia. Procuro ainda a minha cachorra, a minha Preta- Mel... Até quando?

sábado, 5 de abril de 2014

Voo 3295




Naquele dia aconteceram coisas estranhas. Marinalva lembra que precisava guardar o número do voo, TAM 3295. Esses pensamentos diferentes acontecem quando está no aeroporto. A última vez, foi quando o vôo saiu de São Sebastião e não chegava em Otrop Egreal . Como isso pode acontecer, se não tem engarrafamento , nem sinaleira no céu? Alguém quer me enlouquecer?
Desta vez, o número do vôo não estava no painel. Marinalva levou horas para conseguir estabelecer a diferença entre horários de chegadas e partidas. Mesmo depois do estalo, o número do vôo não aparecia! Mas como? 
- Algum dia Marinalva por acaso pensaste que hoje, talvez não fosse hoje? E que poderias estar vivendo o mesmo momento 50 anos depois? Em 2064, por exemplo? E que por isso o número do vôo não poderia aparecer? Ou ainda, que tivesses caído numa dobra do tempo? Onde somente tu saberias desse vôo , mas que de fato ele existia em outro tempo? Ou em um outro mundo simultâneo , que nem o personagem do livro Mundos Simultâneos de Clifford Simak? Quem sabe é por isso que acontece contigo o mesmo que com o Vickers do livro? No ônibus, ninguém sentava ao lado dele, e muitas vezes ninguém falava com ele ! Será que tu e o Vickers são de um outro mundo simultâneo e não sabem? Fala a que Vive Dentro Dela.
- Chega de tanta filosofia Marinalva, acorda! Fala a Gêmea.
- Pois é, mas Cristalina é esperta, ela não esqueceria o número do vôo! 
- Quem sabe? Tudo é imaginação e ela nunca falou em número de vôo nenhum?
- E se o avião desapareceu, que nem semana passada? E eles não querem nos dizer?
- Há sim , entendi, se perguntarmos eles poderiam dizer que o vôo 3295 nunca existiu! E que tu Marinalva estás piradinha!
- Credo! Não diz uma coisa dessas! 
E Marinalva ouve o apito da locomotiva, o celular que fala com ela avisa: 
- Cheguei! Estou esperando as malas!
- Acorda Marinalva! Não és o Vickers, não estás num mundo simultâneo e mesmo assim, o vôo 3295 não existe!
Marinalva não houve, saiu deste mundo, enxerga Cristalina com uma blusinha clara e o coquezinho, com aquele cabelo de Pokahontas que só ela tem!
Nossa heroína continua num outro mundo simultâneo, não vê aquela moça que sai da sala de embarque, calça jeans, cabelo solto e óculos de delegada! 
Vem em sua direção, se aproxima e fala:
-Não reconheces a própria filha?