quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A Anestesia


 Marinalva nunca esqueceu aquela  manhã fatídica. Estava muito nervosa, precisava pegar um vôo com o cachorro mais lindo do mundo, o Zapata do Arari! 

O bicho tinha o pelo azul ruano e enormes olhos tristes. Marinalva tinha certeza que ele era gente e que de tão bonito tinha um pouquinho de depressão.
O fato é que Zapatinha precisava ser anestesiado para poder viajar como carga viva!
Marinalva ficava mortificada com a terminologia! 
- Como podem classificar meu Zapatinha como carga viva? Acho o supremo desrespeito! E eles ainda esquecem de ligar o ar para o meu Mimoso!
- Minha senhora, não adianta insistir, ninguém aqui no aeroporto pode dar a injeção no seu cachorro, a senhora mesmo terá que fazê-lo!
- Meu Deus! E agora? Vou ter que dar injeção no Mimoso!!
Um terremoto começa a se formar dentro de nossa heroína,  tudo tem início no centro do corpo, mais ou menos na altura do umbigo! A mão  começa a tremer e agir por conta própria! 
Marinalva pega a seringa, enche com o líquido anestésico, com a mão esquerda pega a pele solta do bicho e crava a agulha com vontade. Imediatamente a hastezinha de aço atravessa pelo, pele e enterra-se no dedo de Nalvinha!
- Epa, aaai! Que dor! Não acredito! Piquei meu próprio dedo!
-É Nalvinha, já vi muitas  patetices na vida, mas esta bateu recordes!
- Pois é né? E agora? O que farei agora?
- Espera pra ver no que vai dar...
O avião aterrisa, Marinalva aguarda minutos intermináveis.... Dois meses depois...   lá vem ele sacudindo o rabinho! Mas como? A caixa de guardar Ararinho tem um énorme rombo e está solto!! 
-Pois é minha senhora, o seu cachorro comeu a caixa e saiu por aí andando!
- Não acredito, que irresponsabilidade deixarem o meu bichinho sozinho num lugar desconhecido...
- Marinalva, acorda! A anestesia fez efeito em ti, o Zapata ficou bem acordado aprontando! Gastaste o precioso líquido  no teu dedinho, ó pequena Hanta! Dormiste bem no vôo?
- Sim e meu dedinho virou pedra anestesiada! E agora? O que faremos agora?
- Menos Marinalva menos! Dá um tempo!


domingo, 12 de outubro de 2014

A lágrima

Domingo, seis da tarde, hora do Angelus, céu cinza, pressago... Marinalva caminha na rua com Loli. Sente uma tristeza profunda, a alma rasgada...
- Nunca suportei esse aperto aos domingos, essa solidão de vesperal...
- Minha alma virou uma lágrima...
Conta os minutos dos poderes da lágrima... 
Volta para casa, esquece tudo, não sabe como, desliga.
Dia seguinte, acorda , olha o céu. Cadê a Constelação de Orion? 
Pensa:
- Com estes dias nublados preciso levantar mais cedo! E lembra, para secar uma lágrima nada como ver o sol nascer e o dia amanhecer !

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O Fiat 147


Marinalva nunca esqueceu. Seu pai não gostava de comprar carros usados. Porque ela deveria fazê-lo? Desafiou os avisos das dezessete e comprou o 147. Era branco! 
Sobre o Fitinho recaiu o mau olhado! Vejam só!
Negou-se a ouvir os sussurros das impertinentes que lhe diziam:
- Se este cara está vendendo um carrinho que parece tão novinho, com certeza deve ser porcaria!
Não demorou muito, tinha ido buscar Cristalina na escolinha. As duas subiam a Rua das Abobrinhas quando o carrinho virou vulcão! Rolos de fumaça saíam pelo capô! Com o coração saindo pela boca, pegou a filhota pela mão e desceram correndo! A garota sempre permaneceu calma nas situações mais difíceis! Marinalva, desde então teve certeza que era uma menina abençoada.
Bateram, a proprietária prontamente cedeu a chaleira de água fria! Literalmente esfriou a cabeça do carrinho branco...
A segunda vez foi engraçado! O Fiat ferveu de novo enquanto o professor da calçada fazia sinais: 
-Sai daí Marinalva!
A mãe que vinha de uma cirurgia, não se sabe como, pulou ligeirinho de dentro do maledeto!
E o golpe de misericórdia veio quando ouviu a voz da coleguinha da filha!
- A mãe da Cristalina veio de ambulância!!!
Fazem muitos anos… Marinalva não esquece e repete para si mesma:
- Fiat! Nunca mais! Fiat branco! Never!

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Marinalva e Sisominn

Todo domingo Marinalva repete a rotina. Se não fizer tudo igual, fica chata, que nem criança birrenta.
Então, para aproveitar o tempo de sol em sua vida, levanta às 6,00 h da manhã e vai correndo olhar as Três Marias. Adora olhar para a imensidão do céu e admirar uma das poucas constelações que conhece, Órion.
Toma café, banho, cuida da Loli e vai caminhar no parque com sua filha de quatro patas. Isso de tratar cachorro como gente, Nalva não dá a mínima, sabe que tem sua filha Cristalina.
Vai ao cinema, senta e até tira uma soneca! Depois faz compras no supermercado. Pois não é que assim estava escrito que naquela tarde, naquele segundo, encontraria o Sisominn? Considerou aquilo verdadeira fatalidade. Encontrar logo quem!
Sente-se desconfortável, quando precisa admitir que existem pessoas a quem ela nunca vai agradar. Desta vez Nalva teve certeza:  é odiada por Sisominn! E aí! Fazer o que? 
- Eu já te disse, precisas desistir de querer agradar a essas pessoas! Eles nunca ficarão satisfeitos contigo!
- Pois é senhora, minha Outra, que sabe tudo! Por esta não esperavas não é mesmo?
- Oi, o que estás fazendo aqui fantasiada de motoqueira?
Marinalva ouve aquilo! Todas aquelas dublês de corpo que viviam dentro dela fogem! Saem voando! Não dão apoio! Fica sozinha no meio do tiroteio, de óculos, com os cabelos da amiga da Luluzinha - a Aninha - olhar estatelado e boca aberta!
- Oi, o que estás fazendo aqui fantasiada de motoqueira?
 As outras fogem, que nem um bando de pombas. A última volta a cabeça para trás e diz:
- Aí Nalva, responde  alguma coisa!
Como um pensamento de tormenta,  ainda tem tempo para refletir:
- Mas será que nem sequer tenho o direito de vir fazer compras no super?
De longe a outra sopra.
- Não é bem isso Nalva!
Ainda de boca aberta, permanece sozinha, de fato quem fica ali é Nalva-Bozó:
- Ah é heim? Ah é é???
- Vamos responde alguma coisa! 
Sisominn permane olhando para Nalva com muitos olhos, seriam quatro? ou cinco?
-  Pois é, coloquei esta roupa de motoqueira para te encontrar, para vir falar contigo! 
Nalva pensa coisas e palavras que não revela para ninguém, como as outras tinham ido embora, ninguém fica sabendo...
- Maninha, a minha saída foi piedosamente fraquinha, não é mesmo?
De repente, todas voltam correndo e se instalam em sua mente para palpitar.
- Esquece Nalvinha, ele é muito pequeno, não vale o esforço!
- É isso mesmo, irmãzinha, mesmo que estivesses uma palhacinha, ele não paga as tuas contas!
- Pois é amiga, podes crer, de hoje em diante, vamos mandar para ele aquele teu pensamento  forte, capaz de "derrubar brigadiano"! (risos) E ele vai terminar gravando todos os arquivos do Notebook em "argot e verlain", entenderam? Se não entenderam procurem na Wikipédia!
- Entendi - responde a Gêmea - quer dizer que os arquivos com final pdf vão se transformar em fdp!
- Estás ficando esperta irmãzinha!





terça-feira, 26 de agosto de 2014

Marinalva ou Malva-Negri

Era Malva-Negri? Sim, era Malva-Negri, a mais raivosa, mãe de Marinalva. Aquela do tempo da ditadura! Ah, sim? E o que aprontou a Malva-Negri quando saiu de dentro da Marinalva? Ou foi o contrário?
Escute só: Malva-Negri deixou o ex no aeroporto, desceu a rampa, aproximou-se daquela estrada secundária para dar o retorno, quando ele surgiu, do nada!
- Ele quem?
- Ele, o policial, o brigadiano, a ôtoridade!
Mas como? Malva-Negri não pode olhar! Começa a babar! A pressão deve ir a 24X22. Será?
- Calma Malva-Negri, o que houve?
- Ele chegou de repente, não mais que de repente, deslizou na moto,  na frente de todos os carros. Imediatamente ordenou que parassem! Caminhou com as pernas abertas, revólver na coxa direita, camuflado, de capacete cobrindo o rosto, se achando o tal!
- Ha! Deve ter sido com esse uniforme  que a Dilma gastou, na Copa!
- Acho que sim…
A fila foi aumentando, ele continuava lá, de pernas abertas, a AU-TO-RI-DA-DE!
Malva-Negri voou, chegou a enxergar o Transformer de Michael Bay pegando o policial pelo cangote, jogando-o muito longe! Depois, veio aquele pássaro de lata de Avatar, pendurou o camuflado pelo pescoço, sacudiu a cabeça para os lados e o estraçalhou! Não sobrou nada!
Para contrariar Malva-Negri, o policial permanecia no mesmo lugar, imóvel.
- Na sequência, ela chegou a ver Tom Cruise saindo de Missão Impossível, voando na moto, roubando o infeliz, de quem somente se viu uma sombra camuflada que usava botas!
Seis enormes carros cinzas deslizantes e brilhantes passaram. Ah!  aquela sombra negra  era uma ES-COL-TA! E ainda por cima a comitiva tinha uma camioneta Samu! Pode?
- Quem estaria incógnito dentro daqueles carros?
- Estelionatários! Responde a Gêmea.
- Tu sabes o que quer dizer estelionatário?
- Mais ou menos… Mas boa coisa eles não eram!
- Sei, eram da turma do Maluf! Intromete-se A que Mora Dentro Dela.
- Não! Devem ser um bando de milicos, quem sabe?
- Cala essa boca. Diz A Intolerância Zero. 
BUZINADAS!!!
- Acorda Malva-Negri! A estrada está livre, não tem mais ninguém!
- Será, meus sonhos se realizaram e eu nem percebi?
- Pode ser maninha… continua sonhando…
Abre os olhos, o sol inclemente deixa tudo muito claro! Na frente ninguém, apenas ela, Malva-Negri, atrapalha o trânsito.
Com muito esforço, arranca, cantando pneu, e cai no imenso engarrafamento!

terça-feira, 29 de julho de 2014

Rafão

Rafão era o nome dele. Marinalva pensava:
- Quem sabe um dia ele foi um verdadeiro Rafão.
Agora transformara-se numa pálida visão de si mesmo. Alto, os pés não levantavam do chão quando caminhava. O andar titubeante revelava as duras batalhas que tinha enfrentado, agora a luta era mais difícil.
Hoje seus passeios e aventuras restringiam-se ao próprio prédio. Grandes voltas, somente nos limites das canchas do condomínio, acompanhando os primeiros passos da neta, a Renatinha.
Maria "a cuidadora" não descuidava dos dois. Como tudo andava bem, sugeriu que Rafão desse a volta no prédio, enquanto ela levava a Renatinha na caixa de areia. De primeira Rafão passou feliz e abanou para as duas. Um tempo depois o viram de costas, caminhando no balanço. As duas se distraíram na brincadeira, quando Maria percebeu que ele não passara uma terceira vez.
Procuraram no hall de entrada, desceram no sub-solo um, nada do Rafão. Não estaria perdido no sub-solo dois? Ou quem sabe, na sala de jogos? Nada, nem sinal! Maria começou a sentir frio, mas fazia 24 graus. Seriam os nervos?
Conversou em off com os porteiros, que subiram um por um os dezenove andares.
No décimo terceiro, a outra Maria lava a louça, quando lembra que deve trazer a xícara de café que o patrão, o Dr. Miguel, tinha deixado no quarto. Entrou na sala e quase teve um desmaio! Quem era aquele homem sentado no sofá, com olhar firme de quem sempre deu ordens?
O homem falou:
- Por favor, me traga um café, estou com fome!
Maria não entendeu nada! A mão não lhe obedecia, tremia, mal conseguiu tirar o telefone do gancho para chamar o patrão.
- Dr. Miguel, o senhor marcou reunião com alguém?
- Não, não marquei nenhuma reunião.
- Tem um homem, sentado na sala, que me mandou fazer café para ele!
O telefone fica mudo, cai a ligação.
Maria sente o coração bater forte:
- Por que será que ele está batendo desse jeito e eu nem tô subindo escada?
Ninguém respondeu, mas ela Maria respondeu ao chamado urgente e irritante do telefone:
- Dr. Miguel, e agora ? o que eu faço?
- Aqui não é o Dr. Miguel, é a vizinha do 512, diz para a tua patroa vir aqui buscar o filho dela, que o folgado tá roncando no meu sofá!
- Essa não! E agora? Faço ou não faço o café para este sr. Mandão? Já sei, vou perguntar para o porteiro!
- Por favor Maria, me traz logo esse café! Nesta casa ninguém me obedece!
Ainda de mão com Maria, descendo do elevador , Rafão repete:
- Maria, assim não é possível, estou com fome, quando vais fazer o meu café?

O Dia do Contato

Marinalva e Liana tinham ido passar o fim de semana no sítio da amiga Iná. O mar não estava para peixe. Lá, estavam os parentes da amiga, pai, mãe, avó, tia e marido. No que se refere a este, nossa heroína nunca entendeu aquela união de mediocridades. Talvez fosse fácil explicar…mas enfim, ela não entendia… Como a tia da Iná tinha escolhido aquele cara tão grosseiro e mal educado? Os dois viviam se desentendendo. Aquele dia, retiraram-se para brigar, fechados no quarto, como faziam sempre. Para o pior, o marido era brigadiano. Nalva lembrou-se da mãe que não simpatizava nenhum pouco com brigadianos. 
Reinava um baixo astral em virtude da morte do tio de Iná. Era como uma neblina descendo devagar sobre as cabeças, família de luto e avó inconsolável. Enfim, não valia nada o pobre homem, era menosprezado por todos. Alcóolatra, não trabalhava, sugava o dinheiro da mãe e não havia clínica de recuperação que conseguisse salvá-lo de si mesmo. 
Naquela noite, naquele momento, por acaso, Marinalva estava sozinha, sentada no sofá da sala. Percebeu o vulto de um homem que entrara na cozinha. Mas como, se o único homem da casa estava fechado no quarto brigando com a mulher? Minutos depois decidiu conferir na cozinha. Não havia ninguém… Marinalva pensou:
- Mais essa... Não basta esse clima de morte?
Decidiram voltar mais cedo para Santa Paulo. O fim de semana não tinha sido dos melhores. O carrinho de Liana, muito novo e lustroso deslizou para a estrada principal e tomou o rumo de volta para casa. Anoitecia, um daqueles fins de tarde de domingo, que rasgam a alma, quando pensamos, quem sabe, um dia, pudéssemos sair correndo em busca do tempo perdido...
E o inesperado aconteceu, angustiadas com a visão do "vulto"-  afinal quem  era? - tudo o que não desejavam ver e viver, aconteceu. Instalou-se aquela sensação de mal estar. O rádio enlouqueceu. O horizonte, coberto de nuvens pressagas, escondera o sol por antecipação. 
Você assistiu a "Contatos Imediatos do Terceiro Grau"? Mas como? Marinalva e Liana estavam dentro de um filme de Steven Spielberg? Ou tinham entrado em um mundo paralelo?
Louco, o rádio trocava de estação sozinho. De repente, sem mais nem menos aquele pastor berrava:
- "Senhor, perdoai os nossos pecados"!
Liana tentava trazer de volta o aparelho que adquirira vida e vontade própria! Nem que fosse para tocar música sertaneja! E o pastor saía do abismo, dava aquele grito assustador! As duas quase saltaram do banco:
- "Irmãos pecadores! Vocês queimarão no inferno se não obedecerem à vontade do Senhor"!
Marinalva mal conseguia falar:
- Meu Deus, tira dessa rádio, o que é isso? Não aguento mais!
Sem saber o que fazer, Liana olhou para Angelita. A cachorra poderosa - orelhas"petit poids" - se apagou, desmaiou, entrou na fenda do tempo. Ninguém soube explicar o que acontecia. Enquanto isso, o pastor bradava. Liana tentava reanimar a cachorra, com a língua de fora, dentes trancados, olhar vazio. Naquele momento Angelita desistira de participar da cena, estava praticamente morta!
Quanto tempo durou o pesadelo? Eisenstein deve ter se metido no meio da história e esticou o tempo. Nenhuma das duas soube dizer quanto tempo durou. De repente, o silêncio. O rádio emudeceu. Ouvia-se apenas o ruído do motor, como se nada tivesse acontecido.  Algum tempo depois Liana olhou para a cachorra. Angelita voltava à vida. A noite ficou escura, pontos de luz se multiplicaram, carros cruzavam o caminhos das três, postos de gasolina começaram a aparecer, pessoas eram vistas ao longe. O carro entrava em Santa Paula.






Vai para a Luz

Marinalva era bem mais jovem quando aquilo tudo aconteceu. Ela lembra do Hostel em Buenos Aires. Estava hospedada com a Ytan, as duas passavam as tardes inteiras na Universidád de Buenos Aires estudando espanhol. O lugar era sujo e gasto, quase tão deprimente quanto o Pensionato das Irmãs de Jesus Cristo Crucificado, em Ortop Agrele. A pintura era um verde desbotado e poeirento. Bem que os portenhos se orgulham de parecerem europeus. Nisto, o Hostel era bem parisiense. Os banheiros eram velhos, úmidos e coletivos. Uma sensação muito ruim lhe arrepiava quando entrava no banheiro. Tudo era tétrico e ameaçador. Recusava-se a ir ao banheiro do segundo pavimento, lá estava aquela banheira com um ralo amarelado, fechada por uma cortina seca, de plástico, com flores desbotadas. Imagine o que alguém poderia encontrar, se corresse aquela cortina de uma vez? 
Todos os dias, os hóspedes se reuniam nos últimos pavimentos para beber, fumar e conversar. Aquela noite, Nalva resolveu dormir mais cedo. Voltou para o quarto, deitou e dormiu logo. Na madrugada acordou, a amiga não tinha voltado. O ambiente estava escuro, porém entravam alguns fios de luz pela persiana de madeira, do outro lado do quarto.
Sentiu o mal estar de uma presença. Você já sentiu um fino arrepio nas costas , quando era obrigado a tocar piano e sabia que tinha alguém parado atrás? Marinalva sentiu mais ou menos isso.
Levantou os olhos e na penumbra cinza, na bruma cinza em que se tinha transformado o quarto, lá estava ele. Era um ser pequenino, a cabeça alcançava a altura da cama superior do beliche. Marinalva ficou petrificada. Parada. Olhava sem saber o que fazer. A criatura  fazia o movimento de quem vai sentar na cama inferior do beliche. Não sentava. Voltava para a posição quase vertical e repetia o movimento. Não sabe quanto tempo aquilo durou. E também não sabe como lhe vieram à mente as palavras:
- Vai para a Luz, vai para a Luz!
Marinalva repetiu muitas vezes o mantra:
- Vai para a Luz, vai para a Luz!
Ela lembra o olhar do pequeno ser, brilhante e infinitamente triste…sentia a sua presença. Estava ali, parado, de costas para o beliche e olhando para ela. 
Encolheu-se na cama e fechou os olhos. Ficou assim, de olhos cobertos e muito fechados até o amanhecer.
O resto dos dias não voltou para o quarto sem a amiga. E bebeu, sim, muitos copos de cerveja toda noite.
Tempos depois, passou na frente do Hostel e mostrou o lugar para mãe. Ambas notaram os brinquedos de criança, transformados em ferro velho, no meio da grama seca...

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A Hora da Verdade

Marinalva é única no mundo, disso você pode ter certeza. Desde de criança não entendia porquê  tudo aquilo acontecia justamente com ela! Agora nossa Nalva decidiu desabafar. Vai contar tudo. Pensa até em escrever um livro de Memórias, tipo Cacá Diegues. Afinal se a Nalvinha sempre se sentiu como " clown" que nem Jerry Lewis, pelo menos, lembra que ele  se dava bem no final!
Os foras não serão relatados por importância, ou por serem os mais engraçados:
Primeiro Episódio
Fim de um dia de trabalho, Nalva, que trabalha em outra cidade, chama a Rádio Táxi de Otrop  Egreal para voltar para o hotel:
- Minha senhora, onde fica esse lugar, UNASAN?
- Escute, moça - crente que estava abafando - se a senhora não sabe onde fica a UNASAN, é melhor não vir me buscar. 
Nesse momento percebe a gafe! Não sabe se ri ou se chora!
- Olha que sairia caro um táxi a 130 km de distância! - Diz a Inconveniente!
- Essa não! Que escorregão foi esse Marinalva? - Fala A Tolerância Zero!
Segundo Episódio
Outro dia fez uma prova para os alunos, até que um deles chamou a atenção para uma questão. Em um segundo, percebeu que perguntava mais ou menos que cor era o cavalo branco de Napoleão!  Essa foi demais né irmãzinha? - Retruca a Gêmea. 
Marinalva aceitou revelar seus segredos, mas depois, emburrou e sequer respondeu aos reclames da outra!
Terceiro Episódio
Lembras Nalva, da aluna, com ar de riso?
- Não tem problema professora deixe essa questão assim mesmo! 
- Claro irmãzinha, tinhas " esquecido" a décima nona questão "respondida" no Quadro de Respostas. 
Desta vez a própria Nalva não se conteve e deu boas risadas, quando lembrou a carinha inocente da menina!
Quarto Episódio
E aquela outra Nalva, lembras aquela do celular? -Falou A que Sabe de Tudo um Pouco.
- Conta Nalva:
- Foi assim, eu estava com um celular em cada bolso, liguei para a Atan e na mesma hora, soava o celular no outro bolso. 
 Você sabia? Nalva usa dois celulares, caso um não dê certo. 
- Bem, eu chamava de novo e o celular tocava! Pensava, engraçado, a Atan me liga bem na hora que ligo para ela!
A que Sabe de Tudo interrompe:
- Nalva, depois de quantos minutos percebeste que estavas ligando para ti mesma? 
- Essa não! 
Marinalva lançou um olhar fulminante para a inconveniente!
- Pois é, de Marinalva para Marinalva: Não agüento mais morar contigo Marinalva! Chega!
Quarto Episódio
E o quarto episódio foi o mais adorável. 
- Posso  contar ?- Pergunta a Fofoqueira.
- Vocês sabiam? Nalva passou uma semana inteira estudando para a prova de " mandarins" organizou  todos os  cadernos, lembrou das professoras com carinho, etc., etc. Estudou muito! Então resolveu anotar algumas palavras - chave, com a menor letra do mundo. Você sabia? Existiu uma pessoa muito importante que escrevia com letras minúsculas. Nalva soube disso e tenta fazer igual. Óbvio, esqueceu o nome do famoso. E acreditem!Não apenas esqueceu o nome do famoso, como esqueceu " a inocente colinha em casa" ! 
Epílogo
Marinalva olha para a platéia com a cara da prima da Mônica- a Aninha - óculos grossos, boca aberta e olhar estatelado!
Riam, divirtam-se, teremos novos episódios nós próximos dias!


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Marinalva e o narrador de Ettore Scola



Considerando que papel aceita tudo, aceitou a coragem de Marinalva ao colocar seu nome ao lado do Narrador de Ettore Scola.
E tem mais, em suas crônicas, a partir deste momento, o Narrador será roubado do filme  “Que estranho chamar-se Federico Fellini.” Vittorio Viviani sai direto da telona para narrar as peripécias de Marinalva.
Para quem não viu, ele usa uma gabardine igual a de Humphrey Bogard em Casablanca, é magro e aparenta 65 anos. Senta-se ao lado dos personagens e vai contando a história.
Assim, é ele quem revela a emoção de nossa heroína ao assistir o Documentário sobre a vida de Fellini:
Marinalva - Que estranho, não nasci em Roma, muito menos em Rimini e como amo Fellini! Quando ele fala de cada personagem, está falando em mim.
Nas crônicas de Marinalva, o Narrador transgride suas funções, dirige a palavra para ela e emite opiniões. A neutralidade passa a quilômetros de  Vittorio Viviani.
Narrador - Te lembras Marinalva quando tinhas 15 anos, viste O Abismo de um Sonho, de Fellini e ficaste fascinada?
Marinalva - Lembro-me como se fosse hoje.  A personagem chamava-se Vanda. Ela e o marido íam visitar o papa. Vanda foge, corre atrás do ”Sceicco Bianco”- Alberto Sordi- um ator de TV que balança numa rede, fantasiado de xeique!
A visão do insólito é absolutamente genial! Na hora da missa e de visitar o Papa, ao lado do marido e parentes, Vanda some! A sogra, era a sogra? parecia a madrinha Totóca! A família era ridícula, pobre de espírito e amarrada à convenções, aliás, como toda família de cidadezinha do interior. No lugar, onde Marinalva morava, as famílias eram iguaizinhas, a da tia Totóca então, nem se fala!
Arrependida, Vanda tenta o suicídio, não consegue pois queria se afogar numa poça de barro!
No fundo, Nalva sabe porque Vanda a emociona tanto! Era uma coitadinha diante de um mundo estranho e fascinante, que metia medo!  Não sentia-se tão boboca quanto Vanda, mas identificava-se com o “coitadinha”... Por isso, ri e chora com Fellini!
Narrador- Afinal porque ele te emociona tanto?
Marinalva - Acho que descobri, Fellini tem um enorme senso do ridículo e do mau gosto que nos rodeia. Ele nos joga de volta, o  quanto de ridículos e idiotas que somos.
Narrador- Seria apenas isso?
Marinalva- Não sei... sei que me emocionei quando soube que Fellini e Ettore foram companheiros. Agora entendo melhor porque amei o filme deste último “Brutti, Sporchi e Cattivi”, quando aquele cara de quinta,  dorme na mesma cama , entre a mulher e a amante!
Narrador- É isso Marinalva, ele nos faz rir, nos devolve o ridículo e o sublime que podemos ser, tudo ao mesmo tempo.
Marinalva- Claro, e como não sou de Roma, nem de Rimini, tenho dificuldade para entender o porque de eu gostar tanto! Mas o som daquelas motos à noite rodando pelas ruas de Roma é de arrepiar a alma!
Narrador- Concordo!
Marinalva- Outra genial que lembro é a ninfômana que abre as pernas como um fole e sai fogo!
Narrador- Hilário, genial! Só Fellini mesmo!
Marinalva - Sabias, querido Narrador, que sou parecida com Fellini em uma única coisinha?
Narrador – Oh, não ! Aguardem que lá vem bomba!
Marinalva- “Ne t’inquietes pas!” É que Fellini ficava sentado em Rimini, olhando o mar,  não entrava na água! Acho que não sabia nadar... Só contemplava... Sou como ele, como tenho medo do mar, prefiro ficar na beira...
Narrador- “Va Marinalva, Va”! É como se a Ana Magnani dissesse para ti,  o mesmo que  falou para o Fellini, no filme “Roma”, quando ele, na madrugada, bate na porta de sua casa:
- “Va Fellini, va”!
Marinalva- Sempre achei isso genial. Mesmo sendo um filme, parece que Fellini bate – de verdade - na porta da casa da Magnani, que abre a janela e diz!
-  “Va Fellini, va”...
O Narrador senta na cadeira, cruza as pernas e fala para a plateia de leitores:
- Deixem ela pensar e sonhar. Vá Marinalva, vá... sonha...
As outras 17, enfileiradas, boquiabertas, de óculos,  não acreditam no que vêem, perguntam em coro:
- Mas hoje ela não falou conosco? Só fala com o Narrador, e agora?
As cortinas se fecham.





sábado, 31 de maio de 2014

A Banda de Rock


Marinalva entrou na sala de aula e o silêncio se fez. Eles, os 56 aluninhos estavam apresentando um show de rock.
- De rock? Mas como se não ouviste nada? - Pergunta a Gêmea.
- Não ouvi mas sei.
- Professora, estávamos testando o som para a senhora! Marinalva finge que não viu nem ouviu:
- Oh, que bom , muito obrigada! Eles riem divertidos com aquilo tudo.
Marinalva entendeu. 
- Quer dizer que meia hora antes de minha aula, tem um show de rock? 
- Pois é professora, a sua aula está famosa na internet!
- Então é isso! Entendi! E não deve ser por minha causa essa fama repentina!
Marinalva conversa com o funcionário que coloca o equipamento de som:
- O senhor sabia do show de rock?
- Não sei de nada professora.
- Escute só - responde - todos eles têm carinha de anjo! Só faltam as asinhas para saírem voando!
- Professora! Aquelas meninas que me mandaram chegar mais cedo com o som porque precisavam testá-lo para a senhora não tinham cara de anjo!
- Mas não é que minha aula ficou mais divertida?! Acho que as danadinhas intimidaram o técnico! He! He! He!
- Nalva, não sei não... Para mim eles são uns baita debochados! - Fala a Desconfiada.
- Até podem ser, mas parecem estar gostando da minha aula. E continuo falando o tempo todo em neoclássico, arquitetos revolucionários, ecletismo e movimento moderno, não é mesmo?
- Não te iludas.  - Fala A que Sabe Tudo.
- Marinalva, até parece que nasceste ontem! - Responde a Incrédula!
- O que eu acho é que nunca vais saber o que eles pensam -Fala a que Não acredita em Nada!
 - Ainda mais que vivem em outro mundo...
- Pensei em dizer para eles que poderiam... quem sabe? Criar uma banda de rock e se darem bem na vida! Que nem o Humberto Gessinger! Afinal ele é famoso, é roqueiro e foi meu aluno. - Responde Marinalva.
- Cruzes ! Em que priscas eras maninha? - Responde A que se Sente Eternamente Jovem.
- Acho melhor calares a boca, não sejas inconveniente!
- Marinalva, fazendo isso não estarias sugerinho que cantar numa banda é melhor que ser arquiteto? Fala A que Inventa Problemas.
- Não é isso. Mas pode ser tão bom quanto.
- Escuta aqui ó Marinalva todas nós vimos o teu entusiasmo pela banda de rock! - Fala A que Mora Dentro Dela!
- É isso mesmo! Não estarias exagerando? Escutem irmãzinhas: vocês sabiam que a nossa Nalva trocou os alunos, convidou a turma errada para fazer o show de rock na inauguração da exposição de fotos?- Fala a Gêmea:
- Vimos tudo - respondem em coro a Foqueira e a Que Adora Novidades!
_ Pois é Nalvinha, saíste correndo atrás do prejuízo e convidaste a turma A para dançar e cantar na festa da turma B, se é que entendi!
- E daí , qual é o problema?- Não estarias metendo os pés pelas mãos...?
- Escuta aqui meu "eu" bem "eu", vou te contar muito baixinho. Nenhuma delas pode ouvir. O fato é que adorei aquela turma de doidinhos, que querem fazer show de rock. Afinal eles testaram o equipamento. Não é mesmo?
- Há é Marinalva? queres viver a tua vida sem nós? Jamais! Ouvimos tudo e já, já vamos dizer o que pensamos!
-Nããaão, chega! Um minuto sozinha por favor!







quinta-feira, 24 de abril de 2014

I want to be alone!


Marinalva faz de tudo para parecer uma pessoa normal. Mas sabe que no fundo tem alguma coisa inexplicável.
- O que será? Ensimesmada, fala consigo mesma:
- Porque será que a seguradora não aceita firmar um contrato comigo?
- Marinalva! Queres dizer que não tens a menor ideia do porque? Risos.
- É bem verdade, não passa ano que eu não dê uma batidinha no carro. Mas  que fazer? Quase sempre os outros batem em mim! Nessa ou em muitas horas , será que por alguns segundos saio do ar? Será?
É o desligamento da máquina Marinalva! He! He! He! Intromete-se A que Vive Dentro Dela.
- Aconteceu ontem… Lembra-se Marinalva.
- Pois é, lavei a caixa de óculos novos junto com minha bolsa. No dia anterior, deixei a torneira aberta uma tarde inteira. Depois me desculpei com Deus e com o Guaíba. Finalmente, dei graças por não inundar o apartamento.
- Hah, e tem aqueles dias em que perdes o ingresso do cinema antes de entrar, não é Nalvinha? Esta parte também esqueceste? Fala a Gêmea.
- Vocês lembram irmãzinhas, o dia em que ela perdeu o ticket da bagagem, quando chegou de viagem?
- Não lembro de nada....Finge Marinalva.
- E o dia em que ela perdeu a passagem que deveria entregar para o motorista no final da viagem? Lembras Nalvinha?
-Paaaareeem! Chega! Calem essa boca suas fofoqueiras! Não agüento mais! I want to be alone! Como dizia a Greta Garbo!
- Nalvinha quando e onde ela falava isso? Em que filme?
- Agora vocês estão mesmo me enchendo o saco! Sabem de uma coisa? Perguntem para o Merten!
P.S.-Merten é o melhor crítico de cinema do Brasil. O cara
é uma enciclopédia ambulante. Não tem nenhum fichário. Guarda tudo na cabeça!
- Pois é eu queria ter um ex- marido que nem ele! He! He! He!
- A troco de que Marinalva?



sexta-feira, 18 de abril de 2014

Ele não falou só com Noé

Um dia, depois de dezessete anos Marinalva descobriu! Engraçado Dezessete é o nome deste Blog! Pois é depois de dezessete anos,  Marinalva descobriu que Deus não falou só com o Noé do dilúvio. Ela passou a acreditar piamente que Deus falou com ela e fazem mais de três anos! Como percebeu só agora? Não sabe! Só sabe que Deus lhe mandou a Preta-Mel de volta. E isso aconteceu há três anos atrás, justo no dia do seu aniversário! Credo, que emoção!
Desta vez a Preta-Mel veio sob uma nova embalagem. Mas de uma coisa Nalva tem certeza, a cachorrinha Loli, que ganhou da ONDA é uma Preta-Mel! É linda! Sapeca como ela só! Tem tudo para se dizer que lembra a verdadeira PM. Não cresceu muito, e ficou tipo policial de pernas curtas. Marinalva sempre pensou que Deus fez um tipo de brincadeirinha,  a cachorrinha tem pernas curtas para combinar com a dona, que com certeza não possui "longas pernas"!
Loli tem o pelo azul ruano, preto, possui a cara - a carinha é claro, para usar a expressão de Nalva- e as orelhas pontudas cor de mel. As patinhas também são douradas! 
Você notou que Marinalva trata seus bichos como seres pensantes? Nalva acredita  que se você parar para pensar nas entrelinhas vai descobrir um mundo novo, cheio de mistérios e coisinhas que ficam entre você e os espíritos. Por que não?  
E nossa Nalvinha e suas dezessete outras, adoram descobrir esses pequenos mistérios do dia a dia que podem enriquecer a vida de qualquer um! 

Um dia muito especial


Um dia muito especial

Marinalva lembra o ano de 1997. Estava em casa, com a mãe e a filha, quando tudo aquilo aconteceu e aqueles pensamentos lhe passaram pela cabeça. Aliás periodicamente  pensava no seguinte:
Um dia tive a certeza de que a gente nunca vai conseguir viver um dia muito especial, como se fosse o último de nossas vidas. Afinal, o que é um dia muito especial?
Nos perguntamos isso tantas vezes,  que terminamos adiando para sempre o viver esse momento  tão especial.
E a gente termina chegando lá...  Ou está quase na porta, no limite desta vida? E agora?
Preciso viver meu dia muito especial, mas me sinto incapaz de fazê-lo! Bem, então vou morrer sem vivê-lo.
Marinalva pensa que isso tudo termina se transformando num papo furado! De quem? De todo mundo? Ou de quem chegou no limite?
Posso dizer que estive lá? Ou estive muito perto? Conclusão, não existe isso, sabem o que é um dia muito especial?
É poder levantar da cama, de manhã, muito rápido, de um sopetão; e nosso belo corpinho aguentar tudo, sem dor! Beleza!
É poder caminhar até a porta do quarto e acordar a filha, que apesar dos seus 17 anos, dorme com o mesmo jeitinho angelical dos seus dois aninhos.
É fazer cafuné no cachorrinho. É ver o sol nascer todos os dias. Isso já é muito especial mesmo!
O dia em que a conheci, para mim, foi especial. Ela me viu, era preta, sem graça, quatro patas e um rabão.
Veio para cima do cachorrinho desta Dondoca que vos fala. Peguei meu doguinho, puxei, mostrei que não queria papo com vira-latas, como sempre faço. Tenho pavor de sarna. No fundo, tenho dó, queria ser uma fada madrinha e curar toda sarna e toda dor. Impossível. Então ajo como qualquer reacionária! Poderia ser diferente? Não sei...
Ela era toda alegria, saltava, queria cheirar e brincar com meu cachorrinho de raça. Ele quase explodiu de emoção! E eu lá, feito boba, puxando a coleira enquanto os dois viviam a felicidade de brincar e se cheirar.
Reclamei cada vez com menos convicção. Mas não é que ela era graciosa em seus movimentos? O pelo azul ruano brilhava ao sol. Me senti o próprio Cantalício, aquele andarilho – era um mendigo?-  que caminhava maltrapilho, acompanhado por uma matilha de cachorros.
Ela fingia que aceitava o meu rechaço, de repente, ignorava tudo e se comportava como se fosse minha. E assim chegamos em casa. Subi. Olhei pela janela, lá estava ela me esperando.
Fui até o supermercado, a estas alturas estávamos íntimas. Tentei colocá-la dentro do carro. Mas como se era uma selvagem? Não andava de carro!
Voltei do super, lá estava ela me esperando. Nenhum morador no prédio, só eu e minha mãe. Fui até o estacionamento, ela comeu e bebeu água. Estava feliz, tinha olhos cor de mel duas marquinhas brancas - minúsculas- no lombo e duas cor de mel nas patinhas. Preta - Mel, esse era o seu nome.
E agora vamos para o apartamento? Empurrada pelas escadas, ficou sem jeito, mortificada... Pior, sem quere pisei na minha Preta. Aí sim, dever ter pensado que tudo  voltara ao normal, com certeza levava porrada todo dia!
Com calma, convenci-a a subir. Entrou no apartamento. Comeu um lauto almoço e ficou sentada como uma esfinge. Mas era a própria esfinge, que majestade! Tentei colocar a coleira, ficou chocada e triste... Mas afinal, deve ter pensado: 
- O que era aquilo? Não estava entendo nada!
Aí acordou e resolveu correr atrás do meu Keyrril . O que era aquilo? Meu apartamento viraria uma bagunça! Uma velhinha se arrastando pela casa e dois cachorros feitos loucos a correr e esculhambar! Como Preta-Mel parecia grande ali dentro!
Fui caminhar com minha nova cachorra Preta sem coleira! Ela fazia tudo o que eu mandava! Meu Deus! Eu estava feliz! Até os carros pararam para a Preta passar!
Decidi comprar mais comida para a minha amiga. Era uma comilona! Pronunciei o meu mágico FICA! Entrei no super angustiada. Ela ficaria? Os guardas correriam com ela? E o gerente que estava ali?
Saí, chamei-a. Silêncio... Só alguns meninos de rua brincando. Não, não viram a Preta-Mel. Ela estava ali... cheirando... Sumiu, ninguém viu. Terminou ali o meu dia. Procuro ainda a minha cachorra, a minha Preta- Mel... Até quando?