terça-feira, 29 de julho de 2014

Rafão

Rafão era o nome dele. Marinalva pensava:
- Quem sabe um dia ele foi um verdadeiro Rafão.
Agora transformara-se numa pálida visão de si mesmo. Alto, os pés não levantavam do chão quando caminhava. O andar titubeante revelava as duras batalhas que tinha enfrentado, agora a luta era mais difícil.
Hoje seus passeios e aventuras restringiam-se ao próprio prédio. Grandes voltas, somente nos limites das canchas do condomínio, acompanhando os primeiros passos da neta, a Renatinha.
Maria "a cuidadora" não descuidava dos dois. Como tudo andava bem, sugeriu que Rafão desse a volta no prédio, enquanto ela levava a Renatinha na caixa de areia. De primeira Rafão passou feliz e abanou para as duas. Um tempo depois o viram de costas, caminhando no balanço. As duas se distraíram na brincadeira, quando Maria percebeu que ele não passara uma terceira vez.
Procuraram no hall de entrada, desceram no sub-solo um, nada do Rafão. Não estaria perdido no sub-solo dois? Ou quem sabe, na sala de jogos? Nada, nem sinal! Maria começou a sentir frio, mas fazia 24 graus. Seriam os nervos?
Conversou em off com os porteiros, que subiram um por um os dezenove andares.
No décimo terceiro, a outra Maria lava a louça, quando lembra que deve trazer a xícara de café que o patrão, o Dr. Miguel, tinha deixado no quarto. Entrou na sala e quase teve um desmaio! Quem era aquele homem sentado no sofá, com olhar firme de quem sempre deu ordens?
O homem falou:
- Por favor, me traga um café, estou com fome!
Maria não entendeu nada! A mão não lhe obedecia, tremia, mal conseguiu tirar o telefone do gancho para chamar o patrão.
- Dr. Miguel, o senhor marcou reunião com alguém?
- Não, não marquei nenhuma reunião.
- Tem um homem, sentado na sala, que me mandou fazer café para ele!
O telefone fica mudo, cai a ligação.
Maria sente o coração bater forte:
- Por que será que ele está batendo desse jeito e eu nem tô subindo escada?
Ninguém respondeu, mas ela Maria respondeu ao chamado urgente e irritante do telefone:
- Dr. Miguel, e agora ? o que eu faço?
- Aqui não é o Dr. Miguel, é a vizinha do 512, diz para a tua patroa vir aqui buscar o filho dela, que o folgado tá roncando no meu sofá!
- Essa não! E agora? Faço ou não faço o café para este sr. Mandão? Já sei, vou perguntar para o porteiro!
- Por favor Maria, me traz logo esse café! Nesta casa ninguém me obedece!
Ainda de mão com Maria, descendo do elevador , Rafão repete:
- Maria, assim não é possível, estou com fome, quando vais fazer o meu café?

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