Marinalva era bem mais jovem quando aquilo tudo aconteceu. Ela lembra do Hostel em Buenos Aires. Estava hospedada com a Ytan, as duas passavam as tardes inteiras na Universidád de Buenos Aires estudando espanhol. O lugar era sujo e gasto, quase tão deprimente quanto o Pensionato das Irmãs de Jesus Cristo Crucificado, em Ortop Agrele. A pintura era um verde desbotado e poeirento. Bem que os portenhos se orgulham de parecerem europeus. Nisto, o Hostel era bem parisiense. Os banheiros eram velhos, úmidos e coletivos. Uma sensação muito ruim lhe arrepiava quando entrava no banheiro. Tudo era tétrico e ameaçador. Recusava-se a ir ao banheiro do segundo pavimento, lá estava aquela banheira com um ralo amarelado, fechada por uma cortina seca, de plástico, com flores desbotadas. Imagine o que alguém poderia encontrar, se corresse aquela cortina de uma vez?
Todos os dias, os hóspedes se reuniam nos últimos pavimentos para beber, fumar e conversar. Aquela noite, Nalva resolveu dormir mais cedo. Voltou para o quarto, deitou e dormiu logo. Na madrugada acordou, a amiga não tinha voltado. O ambiente estava escuro, porém entravam alguns fios de luz pela persiana de madeira, do outro lado do quarto.
Sentiu o mal estar de uma presença. Você já sentiu um fino arrepio nas costas , quando era obrigado a tocar piano e sabia que tinha alguém parado atrás? Marinalva sentiu mais ou menos isso.
Levantou os olhos e na penumbra cinza, na bruma cinza em que se tinha transformado o quarto, lá estava ele. Era um ser pequenino, a cabeça alcançava a altura da cama superior do beliche. Marinalva ficou petrificada. Parada. Olhava sem saber o que fazer. A criatura fazia o movimento de quem vai sentar na cama inferior do beliche. Não sentava. Voltava para a posição quase vertical e repetia o movimento. Não sabe quanto tempo aquilo durou. E também não sabe como lhe vieram à mente as palavras:
- Vai para a Luz, vai para a Luz!
Marinalva repetiu muitas vezes o mantra:
- Vai para a Luz, vai para a Luz!
Ela lembra o olhar do pequeno ser, brilhante e infinitamente triste…sentia a sua presença. Estava ali, parado, de costas para o beliche e olhando para ela.
Encolheu-se na cama e fechou os olhos. Ficou assim, de olhos cobertos e muito fechados até o amanhecer.
O resto dos dias não voltou para o quarto sem a amiga. E bebeu, sim, muitos copos de cerveja toda noite.
Tempos depois, passou na frente do Hostel e mostrou o lugar para mãe. Ambas notaram os brinquedos de criança, transformados em ferro velho, no meio da grama seca...
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