terça-feira, 29 de julho de 2014

O Dia do Contato

Marinalva e Liana tinham ido passar o fim de semana no sítio da amiga Iná. O mar não estava para peixe. Lá, estavam os parentes da amiga, pai, mãe, avó, tia e marido. No que se refere a este, nossa heroína nunca entendeu aquela união de mediocridades. Talvez fosse fácil explicar…mas enfim, ela não entendia… Como a tia da Iná tinha escolhido aquele cara tão grosseiro e mal educado? Os dois viviam se desentendendo. Aquele dia, retiraram-se para brigar, fechados no quarto, como faziam sempre. Para o pior, o marido era brigadiano. Nalva lembrou-se da mãe que não simpatizava nenhum pouco com brigadianos. 
Reinava um baixo astral em virtude da morte do tio de Iná. Era como uma neblina descendo devagar sobre as cabeças, família de luto e avó inconsolável. Enfim, não valia nada o pobre homem, era menosprezado por todos. Alcóolatra, não trabalhava, sugava o dinheiro da mãe e não havia clínica de recuperação que conseguisse salvá-lo de si mesmo. 
Naquela noite, naquele momento, por acaso, Marinalva estava sozinha, sentada no sofá da sala. Percebeu o vulto de um homem que entrara na cozinha. Mas como, se o único homem da casa estava fechado no quarto brigando com a mulher? Minutos depois decidiu conferir na cozinha. Não havia ninguém… Marinalva pensou:
- Mais essa... Não basta esse clima de morte?
Decidiram voltar mais cedo para Santa Paulo. O fim de semana não tinha sido dos melhores. O carrinho de Liana, muito novo e lustroso deslizou para a estrada principal e tomou o rumo de volta para casa. Anoitecia, um daqueles fins de tarde de domingo, que rasgam a alma, quando pensamos, quem sabe, um dia, pudéssemos sair correndo em busca do tempo perdido...
E o inesperado aconteceu, angustiadas com a visão do "vulto"-  afinal quem  era? - tudo o que não desejavam ver e viver, aconteceu. Instalou-se aquela sensação de mal estar. O rádio enlouqueceu. O horizonte, coberto de nuvens pressagas, escondera o sol por antecipação. 
Você assistiu a "Contatos Imediatos do Terceiro Grau"? Mas como? Marinalva e Liana estavam dentro de um filme de Steven Spielberg? Ou tinham entrado em um mundo paralelo?
Louco, o rádio trocava de estação sozinho. De repente, sem mais nem menos aquele pastor berrava:
- "Senhor, perdoai os nossos pecados"!
Liana tentava trazer de volta o aparelho que adquirira vida e vontade própria! Nem que fosse para tocar música sertaneja! E o pastor saía do abismo, dava aquele grito assustador! As duas quase saltaram do banco:
- "Irmãos pecadores! Vocês queimarão no inferno se não obedecerem à vontade do Senhor"!
Marinalva mal conseguia falar:
- Meu Deus, tira dessa rádio, o que é isso? Não aguento mais!
Sem saber o que fazer, Liana olhou para Angelita. A cachorra poderosa - orelhas"petit poids" - se apagou, desmaiou, entrou na fenda do tempo. Ninguém soube explicar o que acontecia. Enquanto isso, o pastor bradava. Liana tentava reanimar a cachorra, com a língua de fora, dentes trancados, olhar vazio. Naquele momento Angelita desistira de participar da cena, estava praticamente morta!
Quanto tempo durou o pesadelo? Eisenstein deve ter se metido no meio da história e esticou o tempo. Nenhuma das duas soube dizer quanto tempo durou. De repente, o silêncio. O rádio emudeceu. Ouvia-se apenas o ruído do motor, como se nada tivesse acontecido.  Algum tempo depois Liana olhou para a cachorra. Angelita voltava à vida. A noite ficou escura, pontos de luz se multiplicaram, carros cruzavam o caminhos das três, postos de gasolina começaram a aparecer, pessoas eram vistas ao longe. O carro entrava em Santa Paula.






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