Um dia muito especial
Marinalva
lembra o ano de 1997. Estava em casa, com a mãe e a filha, quando tudo aquilo aconteceu
e aqueles pensamentos lhe passaram pela cabeça. Aliás periodicamente pensava no seguinte:
Um
dia tive a certeza de que a gente nunca vai conseguir viver um dia muito
especial, como se fosse o último de nossas vidas. Afinal, o que é um dia muito
especial?
Nos
perguntamos isso tantas vezes, que
terminamos adiando para sempre o viver esse momento tão especial.
E a gente termina chegando lá... Ou
está quase na porta, no limite desta vida? E agora?
Preciso
viver meu dia muito especial, mas me sinto incapaz de fazê-lo! Bem, então vou
morrer sem vivê-lo.
Marinalva
pensa que isso tudo termina se transformando num papo furado! De quem? De todo
mundo? Ou de quem chegou no limite?
Posso
dizer que estive lá? Ou estive muito perto? Conclusão, não existe isso, sabem o que é um dia muito especial?
É
poder levantar da cama, de manhã, muito rápido, de um sopetão; e nosso belo
corpinho aguentar tudo, sem dor! Beleza!
É
poder caminhar até a porta do quarto e acordar a filha, que apesar dos seus 17
anos, dorme com o mesmo jeitinho angelical dos seus dois aninhos.
É
fazer cafuné no cachorrinho. É ver o sol nascer todos os dias. Isso já é muito
especial mesmo!
O
dia em que a conheci, para mim, foi especial. Ela me viu, era
preta, sem graça, quatro patas e um rabão.
Veio
para cima do cachorrinho desta Dondoca que vos fala. Peguei meu doguinho,
puxei, mostrei que não queria papo com vira-latas, como sempre faço. Tenho
pavor de sarna. No fundo, tenho dó, queria ser uma fada madrinha e curar toda
sarna e toda dor. Impossível. Então ajo como qualquer reacionária! Poderia ser
diferente? Não sei...
Ela era toda alegria, saltava, queria cheirar e brincar com meu cachorrinho de raça.
Ele quase explodiu de emoção! E eu lá, feito boba, puxando a coleira enquanto os
dois viviam a felicidade de brincar e se cheirar.
Reclamei
cada vez com menos convicção. Mas não é que ela era graciosa em seus
movimentos? O pelo azul ruano brilhava ao sol. Me senti o próprio Cantalício,
aquele andarilho – era um mendigo?- que
caminhava maltrapilho, acompanhado por uma matilha de cachorros.
Ela
fingia que aceitava o meu rechaço, de repente, ignorava tudo e se comportava
como se fosse minha. E assim chegamos em casa. Subi. Olhei pela janela, lá
estava ela me esperando.
Fui
até o supermercado, a estas alturas estávamos íntimas. Tentei colocá-la dentro
do carro. Mas como se era uma selvagem? Não andava de carro!
Voltei
do super, lá estava ela me esperando. Nenhum morador no prédio, só eu e minha
mãe. Fui até o estacionamento, ela comeu e bebeu água. Estava feliz, tinha
olhos cor de mel duas marquinhas brancas - minúsculas- no lombo e duas cor de
mel nas patinhas. Preta - Mel, esse era o seu nome.
E
agora vamos para o apartamento? Empurrada pelas escadas, ficou sem jeito,
mortificada... Pior, sem quere pisei na minha Preta. Aí sim, dever ter pensado
que tudo voltara ao normal, com certeza levava porrada todo dia!
Com
calma, convenci-a a subir. Entrou no apartamento. Comeu um lauto almoço e ficou
sentada como uma esfinge. Mas era a própria esfinge, que majestade! Tentei
colocar a coleira, ficou chocada e triste... Mas afinal, deve ter pensado:
- O que era aquilo? Não estava entendo nada!
- O que era aquilo? Não estava entendo nada!
Aí
acordou e resolveu correr atrás do meu Keyrril . O que era aquilo? Meu
apartamento viraria uma bagunça! Uma velhinha se arrastando pela casa e dois
cachorros feitos loucos a correr e esculhambar! Como Preta-Mel parecia grande ali
dentro!
Fui
caminhar com minha nova cachorra Preta sem coleira! Ela fazia tudo o que eu
mandava! Meu Deus! Eu estava feliz! Até os carros pararam para a Preta passar!
Decidi
comprar mais comida para a minha amiga. Era uma comilona! Pronunciei o meu
mágico FICA! Entrei no super angustiada. Ela ficaria? Os guardas correriam
com ela? E o gerente que estava ali?
Saí,
chamei-a. Silêncio... Só alguns meninos de rua brincando. Não, não viram a
Preta-Mel. Ela estava ali... cheirando... Sumiu, ninguém viu. Terminou ali o meu
dia. Procuro ainda a minha cachorra, a minha Preta- Mel... Até quando?
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