sexta-feira, 18 de abril de 2014

Um dia muito especial


Um dia muito especial

Marinalva lembra o ano de 1997. Estava em casa, com a mãe e a filha, quando tudo aquilo aconteceu e aqueles pensamentos lhe passaram pela cabeça. Aliás periodicamente  pensava no seguinte:
Um dia tive a certeza de que a gente nunca vai conseguir viver um dia muito especial, como se fosse o último de nossas vidas. Afinal, o que é um dia muito especial?
Nos perguntamos isso tantas vezes,  que terminamos adiando para sempre o viver esse momento  tão especial.
E a gente termina chegando lá...  Ou está quase na porta, no limite desta vida? E agora?
Preciso viver meu dia muito especial, mas me sinto incapaz de fazê-lo! Bem, então vou morrer sem vivê-lo.
Marinalva pensa que isso tudo termina se transformando num papo furado! De quem? De todo mundo? Ou de quem chegou no limite?
Posso dizer que estive lá? Ou estive muito perto? Conclusão, não existe isso, sabem o que é um dia muito especial?
É poder levantar da cama, de manhã, muito rápido, de um sopetão; e nosso belo corpinho aguentar tudo, sem dor! Beleza!
É poder caminhar até a porta do quarto e acordar a filha, que apesar dos seus 17 anos, dorme com o mesmo jeitinho angelical dos seus dois aninhos.
É fazer cafuné no cachorrinho. É ver o sol nascer todos os dias. Isso já é muito especial mesmo!
O dia em que a conheci, para mim, foi especial. Ela me viu, era preta, sem graça, quatro patas e um rabão.
Veio para cima do cachorrinho desta Dondoca que vos fala. Peguei meu doguinho, puxei, mostrei que não queria papo com vira-latas, como sempre faço. Tenho pavor de sarna. No fundo, tenho dó, queria ser uma fada madrinha e curar toda sarna e toda dor. Impossível. Então ajo como qualquer reacionária! Poderia ser diferente? Não sei...
Ela era toda alegria, saltava, queria cheirar e brincar com meu cachorrinho de raça. Ele quase explodiu de emoção! E eu lá, feito boba, puxando a coleira enquanto os dois viviam a felicidade de brincar e se cheirar.
Reclamei cada vez com menos convicção. Mas não é que ela era graciosa em seus movimentos? O pelo azul ruano brilhava ao sol. Me senti o próprio Cantalício, aquele andarilho – era um mendigo?-  que caminhava maltrapilho, acompanhado por uma matilha de cachorros.
Ela fingia que aceitava o meu rechaço, de repente, ignorava tudo e se comportava como se fosse minha. E assim chegamos em casa. Subi. Olhei pela janela, lá estava ela me esperando.
Fui até o supermercado, a estas alturas estávamos íntimas. Tentei colocá-la dentro do carro. Mas como se era uma selvagem? Não andava de carro!
Voltei do super, lá estava ela me esperando. Nenhum morador no prédio, só eu e minha mãe. Fui até o estacionamento, ela comeu e bebeu água. Estava feliz, tinha olhos cor de mel duas marquinhas brancas - minúsculas- no lombo e duas cor de mel nas patinhas. Preta - Mel, esse era o seu nome.
E agora vamos para o apartamento? Empurrada pelas escadas, ficou sem jeito, mortificada... Pior, sem quere pisei na minha Preta. Aí sim, dever ter pensado que tudo  voltara ao normal, com certeza levava porrada todo dia!
Com calma, convenci-a a subir. Entrou no apartamento. Comeu um lauto almoço e ficou sentada como uma esfinge. Mas era a própria esfinge, que majestade! Tentei colocar a coleira, ficou chocada e triste... Mas afinal, deve ter pensado: 
- O que era aquilo? Não estava entendo nada!
Aí acordou e resolveu correr atrás do meu Keyrril . O que era aquilo? Meu apartamento viraria uma bagunça! Uma velhinha se arrastando pela casa e dois cachorros feitos loucos a correr e esculhambar! Como Preta-Mel parecia grande ali dentro!
Fui caminhar com minha nova cachorra Preta sem coleira! Ela fazia tudo o que eu mandava! Meu Deus! Eu estava feliz! Até os carros pararam para a Preta passar!
Decidi comprar mais comida para a minha amiga. Era uma comilona! Pronunciei o meu mágico FICA! Entrei no super angustiada. Ela ficaria? Os guardas correriam com ela? E o gerente que estava ali?
Saí, chamei-a. Silêncio... Só alguns meninos de rua brincando. Não, não viram a Preta-Mel. Ela estava ali... cheirando... Sumiu, ninguém viu. Terminou ali o meu dia. Procuro ainda a minha cachorra, a minha Preta- Mel... Até quando?

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