Considerando que papel aceita tudo, aceitou a coragem de
Marinalva ao colocar seu nome ao lado do Narrador de Ettore Scola.
E tem mais, em suas crônicas, a partir deste momento, o
Narrador será roubado do filme “Que
estranho chamar-se Federico Fellini.” Vittorio Viviani sai direto da telona para
narrar as peripécias de Marinalva.
Para quem não viu, ele usa uma gabardine igual a de Humphrey
Bogard em Casablanca, é magro e aparenta 65 anos. Senta-se ao lado dos
personagens e vai contando a história.
Assim, é ele quem revela a emoção de nossa heroína ao
assistir o Documentário sobre a vida de Fellini:
Marinalva - Que estranho, não nasci em Roma, muito menos em
Rimini e como amo Fellini! Quando ele fala de cada personagem, está falando em
mim.
Nas crônicas de Marinalva, o Narrador transgride suas
funções, dirige a palavra para ela e emite opiniões. A neutralidade passa a
quilômetros de Vittorio Viviani.
Narrador - Te lembras Marinalva quando tinhas 15 anos, viste
O Abismo de um Sonho, de Fellini e ficaste fascinada?
Marinalva - Lembro-me como se fosse hoje. A personagem chamava-se Vanda. Ela e o marido
íam visitar o papa. Vanda foge, corre atrás do ”Sceicco Bianco”- Alberto Sordi-
um ator de TV que balança numa rede, fantasiado de xeique!
A visão do insólito é absolutamente genial! Na hora da missa
e de visitar o Papa, ao lado do marido e parentes, Vanda some! A sogra, era a
sogra? parecia a madrinha Totóca! A família era ridícula, pobre de espírito e
amarrada à convenções, aliás, como toda família de cidadezinha do interior. No
lugar, onde Marinalva morava, as famílias eram iguaizinhas, a da tia Totóca
então, nem se fala!
Arrependida, Vanda tenta o suicídio, não consegue pois
queria se afogar numa poça de barro!
No fundo, Nalva sabe porque Vanda a emociona tanto! Era uma
coitadinha diante de um mundo estranho e fascinante, que metia medo! Não sentia-se tão boboca quanto Vanda, mas
identificava-se com o “coitadinha”... Por isso, ri e chora com Fellini!
Narrador- Afinal porque ele te emociona tanto?
Marinalva - Acho que descobri, Fellini tem um enorme senso
do ridículo e do mau gosto que nos rodeia. Ele nos joga de volta, o quanto de ridículos e idiotas que somos.
Narrador- Seria apenas isso?
Marinalva- Não sei... sei que me emocionei quando soube que
Fellini e Ettore foram companheiros. Agora entendo melhor porque amei o filme
deste último “Brutti, Sporchi e Cattivi”, quando aquele cara de quinta, dorme na mesma cama , entre a mulher e a
amante!
Narrador- É isso Marinalva, ele nos faz rir, nos devolve o
ridículo e o sublime que podemos ser, tudo ao mesmo tempo.
Marinalva- Claro, e como não sou de Roma, nem de Rimini,
tenho dificuldade para entender o porque de eu gostar tanto! Mas o som daquelas
motos à noite rodando pelas ruas de Roma é de arrepiar a alma!
Narrador- Concordo!
Marinalva- Outra genial que lembro é a ninfômana que abre as
pernas como um fole e sai fogo!
Narrador- Hilário, genial! Só Fellini mesmo!
Marinalva - Sabias, querido Narrador, que sou parecida com
Fellini em uma única coisinha?
Narrador – Oh, não ! Aguardem que lá vem bomba!
Marinalva- “Ne t’inquietes pas!” É que Fellini ficava
sentado em Rimini, olhando o mar, não
entrava na água! Acho que não sabia nadar... Só contemplava... Sou como ele,
como tenho medo do mar, prefiro ficar na beira...
Narrador- “Va Marinalva, Va”! É como se a Ana Magnani
dissesse para ti, o mesmo que falou para o Fellini, no filme “Roma”, quando
ele, na madrugada, bate na porta de sua casa:
- “Va Fellini, va”!
Marinalva- Sempre achei isso genial. Mesmo sendo um filme,
parece que Fellini bate – de verdade - na porta da casa da Magnani, que abre a
janela e diz!
- “Va Fellini, va”...
O Narrador senta na cadeira, cruza as pernas e fala para a
plateia de leitores:
- Deixem ela pensar e sonhar. Vá Marinalva, vá... sonha...
As outras 17, enfileiradas, boquiabertas, de óculos, não acreditam no que vêem, perguntam em coro:
- Mas hoje ela não falou conosco? Só fala com o Narrador, e
agora?
As cortinas se fecham.
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