terça-feira, 15 de dezembro de 2015

D. Marinalva



D. Marinalva vivia em San Antonio, com a filha. O corpo de D. Marinalva já atingia a faixa dos 48. Lembrava a cintura da mãe da Luluzinha. Não praticava exercícios e a cinturinha aumentava alguns centímetros por ano. Faceira como ela só D. Marinalva não sabia disso, nem notava esses detalhes. Diz ela que viveu sim o preconceito de ser chamada de mulher separada. Bem mal vista naqueles tempos. Deixaram de falar com ela quando se separou de seu Marcolino. Este sim um mulherengo e namorador de marca maior. D. Marinalva sofreu muito com as artes de seu Marcolino. Ela jurou que agora só se dedicaria à filha, a mimosa Cristalina. A garota ganhou esse nome por ser branquinha e transparente como um cristal.  
D. Marinalva não conseguia esconder seu entusiasmo por alguns homens muito, muito mais jovens do que ela. Nunca esqueceu aquela tarde, estava com Cristalina na janela e passou aquele cara lindo! Aquele cara que cuidava da farmácia. Chamou Cristalina e falou alto, sem querer:
- “Olha milha filha para mim não existe homem mais lindo! Ele é bonito e gostoso como um chocolate!”.
- ”Para mim, ele e aquela atriz da Globo, sabes quem é filha? Aquela atriz...! Os dois, para mim são os mais lindos , parecem mesmo uns chocolates deliciosos”.
D. Marinalva esquecia tudo. Quando precisava dizer o nome de algum ator ou atriz era um desastre. Não se lembrava...
D. Marinalva pensava:
_ ”Que negão mais lindo Deus meu! que pedaço do bom caminho! He, He, He!”
Isso ela pensava que não deveria sequer pensar, mas pensava. Enfim podia ser mal interpretada. Podiam dizer que era racismo. E era bem o contrário... Ou que ela era uma mulher assanhada.
D. Marinalva se preocupava muito com o que os outros podiam dizer. A filha sacudiu os ombros e não deu grandes ares de importância. Mas, desde esse dia, aquele moço cor de chocolate que D. Marinalva não conseguia sequer olhar, pois estremecia, pois não é que ele passou a lhe dirigir um sorriso? Atravessava a rua quando ela passava só para lhe dar um “oi”  muito comprido...Quando encontrava com ele no supermercado, esquecia o que estava fazendo , tropeçava nas frutas, derrubava tudo! Era um Deus nos acuda!
D. Marinalva teve que trocar de endereço, nunca mais viu o homem de chocolate. Um dia ela arranjou coragem e comentou com a filha:
-Te lembras - minha filha- daquele moço mais lindo e gostoso que chocolate?
- Claro, mãe foi o dia que passei a maior vergonha da minha vida. Ele ouviu tudo do outro lado da rua! Claro não é? Falas gritando!
D. Marinalva pensou?
- Será?
Outro dia D. Marinalva compareceu à inauguração do salão de beleza. Adivinhe quem estava lá?  O homem de chocolate. D. Marinalva não conseguiu se aproximar dele. Pensou ir embora correndo. Mas seus pés não se mexiam.  Não é que o moço tinha engordado? Apesar dos pesares... Tinha chegado o dia de D. Marinalva?  Se ela não se aproximou, ele foi chegando devagarinho,  que nem a Tolinha -  a cachorrinha de D. Marinalva-  de tocaia, esperando para dar o pulo do gato.

Em casa D. Marinalva era um túmulo. Cristalina perguntou, quis saber detalhes. D. Marinalva sequer deu aquele sorriso enigmático que seria uma verdadeira confissão. Ficou muda...

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