D. Marinalva
vivia em San Antonio, com a filha. O corpo de D. Marinalva já atingia a faixa
dos 48. Lembrava a cintura da mãe da Luluzinha. Não praticava exercícios e a
cinturinha aumentava alguns centímetros por ano. Faceira como ela só D. Marinalva
não sabia disso, nem notava esses detalhes. Diz ela que viveu sim o preconceito
de ser chamada de mulher separada. Bem mal vista naqueles tempos. Deixaram de
falar com ela quando se separou de seu Marcolino. Este sim um mulherengo e
namorador de marca maior. D. Marinalva sofreu muito com as artes de seu
Marcolino. Ela jurou que agora só se dedicaria à filha, a mimosa Cristalina. A
garota ganhou esse nome por ser branquinha e transparente como um cristal.
D. Marinalva
não conseguia esconder seu entusiasmo por alguns homens muito, muito mais
jovens do que ela. Nunca esqueceu aquela tarde, estava com Cristalina na janela
e passou aquele cara lindo! Aquele cara que cuidava da farmácia. Chamou
Cristalina e falou alto, sem querer:
- “Olha milha filha para mim não existe homem
mais lindo! Ele é bonito e gostoso como um chocolate!”.
- ”Para mim, ele e aquela atriz da Globo, sabes
quem é filha? Aquela atriz...! Os dois, para mim são os mais lindos , parecem
mesmo uns chocolates deliciosos”.
D. Marinalva
esquecia tudo. Quando precisava dizer o nome de algum ator ou atriz era um
desastre. Não se lembrava...
D. Marinalva
pensava:
_ ”Que negão mais lindo Deus meu! que pedaço do
bom caminho! He, He, He!”
Isso ela
pensava que não deveria sequer pensar, mas pensava. Enfim podia ser mal
interpretada. Podiam dizer que era racismo. E era bem o contrário... Ou que ela
era uma mulher assanhada.
D. Marinalva
se preocupava muito com o que os outros podiam dizer. A filha sacudiu os ombros
e não deu grandes ares de importância. Mas, desde esse dia, aquele moço cor de
chocolate que D. Marinalva não conseguia sequer olhar, pois estremecia, pois
não é que ele passou a lhe dirigir um sorriso? Atravessava a rua quando ela
passava só para lhe dar um “oi” muito
comprido...Quando encontrava com ele no supermercado, esquecia o que estava
fazendo , tropeçava nas frutas, derrubava tudo! Era um Deus nos acuda!
D. Marinalva
teve que trocar de endereço, nunca mais viu o homem de chocolate. Um dia ela
arranjou coragem e comentou com a filha:
-Te lembras -
minha filha- daquele moço mais lindo e gostoso que chocolate?
- Claro, mãe
foi o dia que passei a maior vergonha da minha vida. Ele ouviu tudo do outro
lado da rua! Claro não é? Falas gritando!
D. Marinalva
pensou?
- Será?
Outro dia D.
Marinalva compareceu à inauguração do salão de beleza. Adivinhe quem estava
lá? O homem de chocolate. D. Marinalva não
conseguiu se aproximar dele. Pensou ir embora correndo. Mas seus pés não se
mexiam. Não é que o moço tinha
engordado? Apesar dos pesares... Tinha chegado o dia de D. Marinalva? Se ela não se aproximou, ele foi chegando
devagarinho, que nem a Tolinha - a cachorrinha de D. Marinalva- de tocaia, esperando para dar o pulo do gato.
Em casa D.
Marinalva era um túmulo. Cristalina perguntou, quis saber detalhes. D.
Marinalva sequer deu aquele sorriso enigmático que seria uma verdadeira
confissão. Ficou muda...
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