Diariamente, Marinalva atravessa a rua com sua cachorra
Tolinha, para passearem no parque. A faixa de pedestre virou um Deus nos acuda.
Agora que começou o ano, Nalva presta atenção, olha para o lado esquerdo e vê aquela
fila enorme de carros, em grande velocidade. Mesmo longe, atravessar, nem
pensar! Ruim mesmo é quando surge, do nada, aquele carro, do lado esquerdo, que toma conta da rua.
MARINALVA - Óbvio, todos pensam que o mundo existe para eles, que a rua
é propriedade privada de cada um!
A RAIVOSA – Te lembras Nalva daquela mãe maluca, na frente do Colégio da Cristalina? Ela dizia
que tu passarias somente se ela, a autoridade, a proprietária da rua, permitisse!
MARINALVA – Lembro, são todos muitos loucos, mas não vou
entrar na deles!
A ILUMINADA – Nalva, olha só, hoje não vais ter problemas!
MARINALVA – Hum , não sei não!
Depois das muitas brincadeiras de Tolinha com suas amigas de
quatro patas, as duas voltam para casa. Marinalva para no canteiro central, embaixo
do coqueiro das caturritas! Sonha com o dia em que as verdinhas vão lhe
responder! Toda vez repete:
MARINALVA- Cocótaaa! Cocótaaa! Cocótaaa! Cocota! Cocota!
Cocota! Cocota! Nada. Nessa hora elas se calam... e olham de lado para
Marinalva.
MARINALVA – Pensam que sou louquinha?
Como sempre, nossa heroína olha para o lado direito, a fila
de carros voadores é grande. De repente,
o carrinho azul prateado do lado direito para! O da fila do meio freia
lentamente! E o terceiro também! Os três param para Marinalva e Tolinha passarem!
A ILUMINADA – Eu não falei?
Marinalva, orgulhosa por sentir um solene desprezo pela humanidade,
sente um baque no coração. Fica envergonhada, dá o primeiro passo e começa a rir!
Dá um baita sorriso, com aquela boca enorme! Com certeza, todos viram!
MARINALVA- E essa agora? Não consigo parar de rir e parece
que estou desfilando na Mangueira e todos eles me olhando e eu rindo, dizendo
muito obrigada! Não aguento mais! É emoção demais para mim! Maninhaaaaaa! Vou
chorar! Ai que vergonha ! Estou chorando!
A ILUMINADA - Não liga Nalvinha, eu não conto para ninguém!
Eles nem notaram. Devem ter ficado felizes também!
MARINALVA – Olha só, a Madrinha Totóca dizia que eu era tão feia quando bebê, que
parecia só uma boca! Bobalhona! Mal sabe ela, agora meu sorrisão continua enorme, mas não
está tão mal! Não achas Iluminada?
ILUMINADA - Podes crer Maninha, é lindo!
MARINALVA – Pois é Tolinha! Ganhamos nosso dia!
Feliz, a cachorrinha sacode o rabo e lá se vão as duas, cada
dia mais unidas!
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